Conteúdo Educativo · Dr. Giuseppe Gatto

Quem Pode ser
Transplantado

A avaliação para transplante não é uma barreira — é o ponto de partida. Entenda os critérios, o que não impede o transplante e os resultados reais no Brasil.

Última revisão: 16 de maio de 2026 · Por Dr. Giuseppe Gatto (CRM-DF 13.009 · RQE 7597) · Política editorial

Sobrevida — Doador Vivo · 1 ano
97%
Dados do Registro Brasileiro de Transplantes
Sobrevida — Doador Vivo · 5 anos
93%
Registro Brasileiro de Transplantes
Sobrevida — Doador Falecido · 1 ano
92%
Registro Brasileiro de Transplantes
Sobrevida — Doador Falecido · 5 anos
83%
Registro Brasileiro de Transplantes

O momento certo para agir

Apresentar o transplante como opção

G4 · TFG < 29

A conversa sobre transplante começa no estágio G4. Quanto mais cedo, maior a chance de um transplante preemptivo — antes da diálise — que tem os melhores resultados.

Encaminhar para avaliação

TFG < 20

A Sociedade Brasileira de Nefrologia recomenda o encaminhamento para o centro de transplante quando a TFG cai abaixo de 20 ml/min — mesmo que o paciente ainda não esteja em diálise.

Quem pode entrar na lista

💉
TRS ativa

Paciente em diálise

Em hemodiálise ou diálise peritoneal — independente da TFG atual.

🔬
< 10 ml/min

Sem diálise · TFG muito baixa

Paciente adulto sem diabetes pode ser inscrito na lista mesmo sem estar em diálise.

🩸
< 15 ml/min

Paciente diabético

Diabéticos têm critério diferenciado — inscrição com TFG abaixo de 15 ml/min.

👶
< 15 ml/min

Menor de 18 anos

Crianças e adolescentes também têm critério diferenciado — inscrição com TFG abaixo de 15 ml/min.

O que pode e o que impede

Condições que não impedem o transplante

Muitas condições que parecem ser barreiras — não são. A avaliação é individualizada e baseada em evidências, não em preconceitos.

Diabetes

Diabéticos podem e devem ser avaliados para transplante — inclusive com critério diferenciado de inscrição na lista.

Idade avançada

Idade sozinha não é critério de exclusão. O que importa é a condição clínica geral. Estudos mostram benefício do transplante mesmo em pacientes acima de 70 anos.

Estar em diálise

Diálise não impede nem atrasa o transplante. Porém, quanto menos tempo em diálise antes do transplante, melhores os resultados.

Obesidade

Pode aumentar o risco cirúrgico, mas não é contraindicação absoluta. O benefício do transplante permanece mesmo em pacientes obesos.

HIV, hepatite B ou C

Com tratamento adequado e viremia controlada, o transplante beneficia esses pacientes. A avaliação é individualizada.

Transplante anterior

O retransplante é possível em muitos casos. A avaliação considera o motivo da perda do enxerto anterior e o risco imunológico atual.

Múltiplas comorbidades

Evidências mostram benefício do transplante mesmo em pacientes com várias doenças associadas. O comparador é a permanência em diálise — não um cenário ideal.

Contraindicações absolutas

Situações em que o risco do transplante é muito elevado ou o benefício é improvável. Nesses casos, o encaminhamento não é recomendado no momento atual.

Câncer ativo sem tratamento

Neoplasia maligna ativa sem perspectiva de tratamento. Após o término do tratamento, a indicação depende do tipo de câncer e do tempo decorrido.

Doença neurológica degenerativa progressiva

Condições como demência avançada ou doenças neurológicas sem perspectiva de melhora.

Doença psiquiátrica grave não controlada

Quando compromete a capacidade de adesão ao tratamento imunossupressor, que é exigente e para a vida toda.

Uso abusivo de substâncias sem tratamento

Dependência química ativa sem tratamento em curso. Com tratamento e período adequado de abstinência, pode ser reavaliado.

Comprometimento grave das artérias da pelve

Vasculopatia grave envolvendo as artérias ilíacas — necessárias para o implante do enxerto renal.

Contraindicações temporárias

Situações de risco elevado, mas com resolução provável. Tratadas, o paciente pode ser reavaliado e encaminhado para o centro de transplante.

Infecção ativa

Qualquer infecção ativa deve ser tratada antes do transplante. Após resolução, o paciente pode ser encaminhado normalmente.

Infarto ou AVC recentes

Aguardar pelo menos 6 meses após infarto agudo do miocárdio ou acidente vascular cerebral antes do encaminhamento.

Doença coronariana não tratada

Necessita investigação e tratamento adequado antes da avaliação para transplante.

Úlcera péptica em atividade

Deve ser tratada antes do transplante, pois os imunossupressores aumentam o risco de complicações gastrointestinais.

Atividade extra-renal de doença sistêmica

Doenças como lúpus ou vasculites em atividade fora dos rins precisam de controle antes do transplante.

Câncer em tratamento

Durante quimioterapia ou radioterapia, aguardar o término do tratamento. Após, a indicação depende do tipo e do tempo de remissão.

Sobrevida do enxerto renal

Doador Vivo

Os melhores resultados disponíveis

1 ano 97%
5 anos 93%
Doador Falecido

Resultados semelhantes ao padrão mundial

1 ano 92%
5 anos 83%

Fonte: Registro Brasileiro de Transplantes — ABTO 2023

Em caso de dúvida sobre a candidatura de um paciente, a recomendação da SBN é clara: encaminhe para avaliação e deixe que a equipe do centro de transplante decida. Se o paciente for considerado contraindicado, tem direito a buscar uma segunda opinião.

Consenso SBN · Brazilian Journal of Nephrology · 2025
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Artigo · Elegibilidade para Transplante

A avaliação não é uma barreira — é um ponto de partida

Muitos pacientes chegam ao consultório com a impressão de que a avaliação para transplante é um filtro rigoroso, criado para excluir candidatos. Essa impressão vem de relatos antigos, de tempos em que os critérios eram, de fato, mais restritivos. A nefrologia mudou. Hoje, a avaliação é menos um filtro de exclusão e mais um mapeamento personalizado do caminho — identificar o que precisa ser preparado, o que precisa ser corrigido, o que precisa ser monitorado, para que o transplante aconteça da melhor maneira possível.

O que praticamente nunca se diz hoje em uma avaliação para transplante é 'você não pode'. O que se diz é 'antes do transplante, vamos resolver X, Y e Z'. Para a maioria dos pacientes, esses 'X, Y e Z' são objetivos alcançáveis em alguns meses — controle de pressão, otimização do diabetes, tratamento de uma infecção dentária, ajuste cardiológico.

O que eu observo no consultório, depois de quase duas décadas em transplante renal — incluindo a estruturação do Programa de Transplante da UnB —, é que pacientes orientados sobre essa lógica chegam à avaliação com outra postura. Não como quem vai ser julgado, mas como quem está montando seu próprio caminho.

Este texto explica os critérios atuais de elegibilidade, o que não impede o transplante (apesar do que muitos pensam), e qual é o momento ideal para começar essa conversa.

Quando começar a avaliação

A primeira pergunta importante não é 'quem pode', mas 'quando'. Porque começar a avaliação cedo é o que define se o paciente vai ter acesso a opções melhores — incluindo o transplante preemptivo (antes da diálise).

As recomendações atuais orientam:

Cada mês de antecedência aumenta o leque de opções. Cada mês perdido fecha portas. Atrasar a avaliação é uma decisão — e quase sempre uma decisão ruim.

Quem é candidato — os critérios atuais

Os critérios para elegibilidade ao transplante renal são menos restritivos do que muitos imaginam. As diretrizes brasileiras e internacionais convergiram, ao longo dos anos, para uma posição mais inclusiva.

Candidatos a transplante renal são, em geral:

O que NÃO impede o transplante (apesar do que muitos pensam)

Esta é provavelmente a seção mais importante do texto, porque ela desfaz mitos que afastam pacientes da avaliação por engano. Várias condições que eram contraindicação há 20 anos hoje não são.

Quais são as contraindicações reais

Mesmo com critérios mais flexíveis, existem situações que verdadeiramente contraindicam o transplante — em geral, situações em que o risco do procedimento e da imunossupressão posterior supera o benefício esperado. As contraindicações absolutas são raras; a maioria é relativa e temporária.

Contraindicações absolutas (verdadeiramente impedem o transplante):

Contraindicações relativas (atrasam o transplante, mas não impedem definitivamente):

A leitura correta dessa lista é: a maioria das pessoas com DRC avançada é candidata a transplante, com ou sem ajustes prévios. A exclusão definitiva é exceção, não regra.

O que envolve a avaliação completa

A avaliação para transplante é detalhada porque o transplante é uma cirurgia importante seguida de medicação de uso contínuo (imunossupressores) que altera o sistema imune. Antes de submeter o paciente a esse percurso, é preciso ter certeza razoável de que ele se beneficiará — e que riscos preveníveis foram identificados e tratados.

A bateria de exames habitual inclui:

A avaliação leva 2 a 4 meses quando bem encaminhada, e culmina com a inscrição na fila do doador falecido e/ou a avaliação do doador vivo identificado. Manter-se na fila exige revisões periódicas, em geral anuais, para garantir que as condições de saúde continuam favoráveis.

Conclusão: a porta está aberta

A pergunta 'eu posso fazer transplante?' tem, para a grande maioria dos pacientes com DRC avançada, a mesma resposta: provavelmente sim, com o preparo certo.

O que pode estar atrasando o caminho não é, em geral, uma contraindicação absoluta — é a falta de avaliação. Pacientes que nunca foram encaminhados ao centro de transplante, que adiaram exames, que não foram informados sobre as opções, perdem janelas que poderiam ter aproveitado.

A boa notícia: essas janelas se abrem novamente. Não tem 'tarde demais' definitivo para a maioria das situações. Um paciente em diálise há vários anos pode ainda ser candidato. Um paciente recém-diagnosticado pode ainda ter tempo de transplante preemptivo. O que muda é a urgência de começar agora.

Para quem está em Brasília, faço a orientação inicial, a avaliação clínica e o encaminhamento ao centro de transplante no meu consultório. Para quem está em outra cidade, a telemedicina permite a mesma conversa estruturada e a orientação sobre os passos a tomar localmente.

Independentemente do caminho específico, vale começar antes — quanto mais cedo, mais opções.

Perguntas frequentes

Tenho diabetes — ainda posso fazer transplante de rim?

Sim, e provavelmente deveria. Diabetes é hoje a principal causa de doença renal crônica que leva ao transplante no Brasil. Pacientes diabéticos transplantados têm melhor sobrevida e melhor qualidade de vida do que pacientes diabéticos em diálise. Para diabéticos tipo 1, existe ainda a opção de transplante duplo (rim + pâncreas), que pode eliminar a necessidade de insulina. A avaliação cardiovascular costuma ser mais detalhada em diabéticos, mas isso não é razão para evitar a avaliação — pelo contrário, é razão para começá-la cedo.

Sou idoso. Tenho idade demais para transplante?

Não existe limite rígido de idade para transplante renal. O que se avalia é a condição clínica geral, não o ano de nascimento. Existem transplantes bem-sucedidos em pacientes com mais de 75 e até 80 anos quando a saúde geral permite. Em pacientes idosos a avaliação cardiovascular costuma ser mais cuidadosa, e o pós-transplante é monitorado com atenção especial — mas a porta está aberta.

Já tive câncer. Posso fazer transplante?

Depende do tipo de câncer, do estágio, do tratamento e do tempo desde a cura. Pacientes com câncer curado há tempo adequado (em geral 2 a 5 anos sem recorrência, dependendo do tipo) podem ser candidatos. Cânceres de pele não-melanoma e cânceres detectados precocemente costumam ter menor restrição. A regra é: cada caso é discutido com a equipe oncológica e a equipe de transplante, e a decisão considera o risco de recorrência, agravado pela imunossupressão pós-transplante, versus o benefício esperado do transplante. Para muitos pacientes com histórico oncológico, o transplante é possível.

Quanto tempo dura a avaliação para entrar na fila?

Em geral 2 a 4 meses, quando bem encaminhada. Envolve consultas com cardiologista, urologista, infectologista, dentista, psicólogo e/ou assistente social, além de uma bateria ampla de exames de imagem e laboratoriais. Em pacientes com condições associadas (diabetes complicado, cardiopatia, histórico oncológico), pode levar mais tempo até a otimização. O tempo investido na avaliação compensa — quanto mais bem feito esse preparo, melhor o resultado do transplante e menos complicações depois.

Eu já estou em diálise há vários anos. Ainda posso fazer transplante?

Sim, na maioria dos casos. Não existe 'tempo máximo em diálise' que impeça o transplante. O que existe é uma realidade epidemiológica: quanto mais tempo em diálise, pior o prognóstico do enxerto. Mas 'pior' não significa 'ruim' — pacientes com vários anos de diálise ainda têm benefício muito significativo do transplante. A avaliação considera o estado clínico atual, não o tempo total em diálise. Se você está em diálise há anos e nunca foi avaliado para transplante, vale conversar com seu nefrologista sobre o encaminhamento agora.

Tenho obesidade — preciso emagrecer antes do transplante?

Depende. Pacientes com IMC até 30 raramente são impedidos por causa do peso. Acima de 30, a conduta é individualizada e leva em conta o status clínico geral, a capacidade do paciente perder peso, e o risco cirúrgico estimado. As estratégias incluem orientação nutricional e atividade física compatível com a condição renal. Em alguns pacientes recomendamos cirurgia bariátrica antes do transplante — não é consenso, é uma decisão tomada caso a caso, e quando feita tem boa segurança em pacientes em diálise selecionados. Não há uma 'meta universal' de IMC: cada paciente é avaliado individualmente.

Conteúdo revisado por
Dr. Giuseppe Gatto
Nefrologista · CRM-DF 13.009 · RQE 7597