Calculadoras
Índice de massa corporal (IMC), taxa de filtração glomerular estimada (TFGe), relação albumina/creatinina urinária (RAC), classificação da doença renal crônica (DRC) e risco de falência renal. Cada cartão mostra a conta, a versão da equação, a população em que ela vale e o que o número não diz.
Discutir uma conduta
Critérios, exceções e fontes com página. O resultado ou o comentário entra na discussão com o professor; não é prescrição.
Em resumo
- A equação de adulto pressupõe creatinina estável; exame único é "achado a confirmar".
- DRC exige 3 meses de alteração e, em G1 e G2, um marcador de lesão renal (veja a definição da KDIGO).
- Albuminúria alterada: confirme em nova amostra, de preferência a primeira urina da manhã, fora de exercício recente, menstruação, hematúria ou infecção urinária.
- Dose de medicamento: use o número da bula (clearance de Cockcroft-Gault ou TFGe); nos extremos de peso, a TFGe sem indexação.
- Risco de falência renal (KFRE): validado em DRC G3 a G5; em G1 e G2 pode não valer. Não use em lesão renal aguda, diálise ou transplante.
1. Índice de massa corporal
IMC = peso (kg) ÷ altura (m)². Classificação da Organização Mundial da Saúde (OMS) para adultos.
Exemplo: 72,5
Em metros (1,72). Valor acima de 3 é lido como centímetros e convertido, com aviso.
Classificação da OMS em adultos
| Classificação | IMC (kg/m²) |
|---|---|
| Baixo peso | abaixo de 18,50 |
| Faixa normal | 18,50 a 24,99 |
| Pré-obesidade | 25,00 a 29,99 |
| Obesidade classe I | 30,00 a 34,99 |
| Obesidade classe II | 35,00 a 39,99 |
| Obesidade classe III | 40,00 ou mais |
Na mesma tabela, "sobrepeso" é todo IMC de 25,00 ou mais (pré-obesidade e obesidade)5, Tabela 2.1, p. 9.
Limitações e quando não usar
- Edema e ascite: o peso inclui líquido retido; o IMC superestima a massa corporal "seca". Comum na DRC avançada, na síndrome nefrótica e na cirrose.
- Composição corporal: o IMC não separa gordura de músculo. Pessoa musculosa pode ter IMC alto sem excesso de gordura; pessoa com pouca massa muscular pode ter IMC normal com excesso de gordura.
- Idosos: perda de estatura e de massa muscular alteram a leitura do mesmo número.
- Gestantes: a classificação acima não se aplica durante a gestação.
- Crianças e adolescentes: usam curvas por idade e sexo, não estes cortes.
- Os cortes de risco variam entre populações; a própria diretriz de obesidade discute medidas complementares, como a circunferência abdominal.
2. TFG estimada pela CKD-EPI 2021 (creatinina, sem raça)
Equação do grupo CKD-EPI (Chronic Kidney Disease Epidemiology Collaboration) de 2021, só com creatinina sérica, sem coeficiente de raça. População: adultos (18 anos ou mais) com creatinina estável. Resultado indexado a 1,73 m² de superfície corporal.
Exemplo: 1,8. Se o laudo estiver em µmol/L, divida por 88,4.
Categorias de TFG (KDIGO 2024)
| Categoria | TFG (mL/min/1,73 m²) | Termo |
|---|---|---|
| G1 | 90 ou mais | normal ou alta |
| G2 | 60 a 89 | levemente diminuída |
| G3a | 45 a 59 | leve a moderadamente diminuída |
| G3b | 30 a 44 | moderada a gravemente diminuída |
| G4 | 15 a 29 | gravemente diminuída |
| G5 | abaixo de 15 | falência renal |
Tradução livre dos termos1, Tabela 2, p. S137. Nota da tabela: sem evidência de lesão renal, nem G1 nem G2 preenchem critério de DRC.
Quando a equação não se aplica ou erra mais
- Idade abaixo de 18 anos: a CKD-EPI 2021 é uma equação de adultos; em crianças e adolescentes usam-se equações pediátricas validadas1, Ponto de prática 1.2.4.3, p. S154. A calculadora não calcula abaixo de 18 anos.
- Creatinina instável ou lesão renal aguda: toda equação de TFGe pressupõe estado estável. Um valor isolado pode refletir lesão aguda1, Ponto de prática 1.1.3.2, p. S149; Ponto de prática 4.2.5, p. S165.
- Extremos de massa muscular: desnutrição, doença consumptiva, fisiculturismo, dieta muito rica ou pobre em proteína, suplemento de creatina e obesidade classe III alteram a creatinina sem alterar a filtração1, Tabela 8, p. S152.
- Amputação acima do joelho e lesão medular com paraplegia ou tetraplegia: menos músculo, creatinina baixa, TFGe superestimada1, Tabela 8, p. S152. Nessas situações a diretriz discute cistatina C ou TFG medida.
- Gestação: a filtração muda fisiologicamente e a equação não foi desenhada para gestantes; não interpretar a TFGe da gestante com estas categorias sem discussão.
- Laboratórios devem liberar a TFGe arredondada para o número inteiro1, Tabela 11, p. S153. Esta calculadora faz o mesmo: classifica pelo número inteiro e mostra a casa decimal só para conferência da conta. Perto dos limites (por exemplo, 59,6, que vira 60), a página avisa que o valor calculado cairia em outra categoria.
Categoria G não é diagnóstico de DRC
DRC é alteração de estrutura ou função renal presente por pelo menos 3 meses, com implicação para a saúde1, Tabela 1, p. S137. TFG abaixo de 60 mL/min/1,73 m² é um dos critérios; em G1 e G2 é preciso um marcador de lesão (albuminúria, alteração de sedimento, hematúria persistente, alteração tubular, histológica ou de imagem, transplante renal prévio). Um exame isolado não prova cronicidade1, Ponto de prática 1.1.3.2, p. S149.
E para ajustar dose de medicamento?
Muitas bulas e tabelas de dose foram construídas com a depuração de creatinina estimada pela fórmula de Cockcroft-Gault, em mL/min, que usa peso e não é indexada à superfície corporal. Outras referências usam a TFGe não indexada (mL/min, obtida multiplicando a TFGe pela superfície corporal do paciente e dividindo por 1,73). Por isso o número desta calculadora (mL/min/1,73 m²) não é intercambiável com o que a referência do medicamento pede.
A KDIGO 2024 considera a TFGe por creatinina adequada para dose na maioria das situações1, Ponto de prática 4.2.2, p. S164, prefere creatinina com cistatina C ou TFG medida quando a margem terapêutica é estreita1, Ponto de prática 4.2.3, p. S164 e a TFGe não indexada nos extremos de peso1, Ponto de prática 4.2.4, p. S165. Esta página não calcula nenhuma dessas alternativas: confira qual estimativa a referência do medicamento usa e discuta com o professor.
3. Relação albumina/creatinina urinária (RAC)
Amostra isolada de urina, de preferência a primeira da manhã, jato médio1, Ponto de prática 1.3.1.1, p. S154. A RAC corrige a concentração da urina pela creatinina urinária.
Em mg/mmol, o valor é convertido para mg/g (× 1.000 ÷ 113,12), com a conta à vista.
Se o laudo trouxer a albumina em mg/L, divida por 10 para obter mg/dL.
Categorias de albuminúria (KDIGO 2024)
| Categoria | RAC (mg/g) | RAC (mg/mmol) | Termo |
|---|---|---|---|
| A1 | abaixo de 30 | abaixo de 3 | normal a levemente aumentada |
| A2 | 30 a 300 | 3 a 30 | moderadamente aumentada (termo antigo: microalbuminúria) |
| A3 | acima de 300 | acima de 30 | gravemente aumentada (termo antigo: macroalbuminúria) |
As faixas em mg/mmol são "aproximadamente equivalentes" às faixas em mg/g1, Tabela 3, p. S137, e quadro de categorias equivalentes, p. S127; a KDIGO usa o fator 0,113 (mg/g × 0,113 = mg/mmol)1, p. S127. Os termos "microalbuminúria" e "macroalbuminúria" não são mais usados pela KDIGO.
Confirmar antes de classificar
- Duas de três amostras. Pela variabilidade biológica da RAC, considera-se albuminúria moderada ou grave quando 2 de 3 amostras colhidas em 3 a 6 meses estão alteradas. A regra está no texto de apoio dos Padrões de Cuidado da American Diabetes Association (seção 11; não é recomendação numerada), que a justifica pela variabilidade biológica acima de 20 % entre medidas6; o rascunho de 2026 da KDIGO de diabetes também a cita7, p. 29. A KDIGO 2024 pede confirmar RAC de 30 mg/g ou mais, achada em amostra aleatória, com amostra da primeira urina da manhã1, Ponto de prática 1.3.1.2, p. S154.
- Fatores transitórios que elevam a RAC: infecção urinária sintomática, exercício intenso, menstruação e hematúria1, Tabela 16, p. S154; também febre, insuficiência cardíaca, hiperglicemia acentuada e hipertensão acentuada, listadas pela American Diabetes Association6. Repetir a amostra fora dessas situações.
- Creatinina urinária: mulheres e pessoas de baixo peso excretam menos creatinina, o que eleva a RAC; pessoas muito musculosas, o contrário1, Tabela 16, p. S154.
E a relação proteína/creatinina?
A relação proteína/creatinina (RPC) mede proteína total, que inclui albumina e proteínas não albumina (tubulares, cadeias leves). As categorias A1 a A3 são definidas pela albumina; por isso a RPC não entra nesta calculadora e não deve ser digitada como se fosse RAC. A KDIGO 2024 aceita a RPC quando se mede proteína1, Ponto de prática 1.3.1.1, p. S154 e cita, como aproximação, RAC de 300 mg/g equivalente a RPC de cerca de 500 mg/g1, Figura 48, p. S166. A conversão de um valor individual é imprecisa: discuta com o professor antes de usar.
Qual é a sua proposta? RAC de 45 mg/g numa amostra colhida na manhã seguinte a uma corrida de 10 km. Você escreveria "albuminúria A2"?
Comentário
Ainda não. O valor cai na faixa de A2, mas exercício intenso eleva a albuminúria1, Tabela 16, p. S154 e uma amostra única não basta. O registro honesto é "RAC de 45 mg/g em amostra única, após exercício intenso; repetir em repouso, com a primeira urina da manhã". O que falta saber: há diabetes, hipertensão ou TFGe reduzida? Há amostras anteriores?
4. Classificação da DRC: causa, G e A
Definição de DRC · KDIGO 2024
Doença renal crônica é alteração da estrutura ou da função renal, presente por pelo menos 3 meses, com implicação para a saúde. Basta um dos dois critérios abaixo, persistente por 3 meses ou mais1, Tabela 1, p. S137.
| Marcador de lesão renal um ou mais |
|
|---|---|
| TFG diminuída | TFG abaixo de 60 mL/min/1,73 m² (categorias G3a a G5) |
Sem marcador de lesão, G1 e G2 não preenchem critério de DRC1, Tabela 2, nota, p. S137. Um exame isolado é achado a confirmar.
A KDIGO classifica a DRC por Causa, categoria de TFG (G) e categoria de Albuminúria (sistema CGA). A combinação de G e A posiciona o caso no mapa de risco de prognóstico1, p. S126. Antes de escrever "DRC", é preciso confirmar a cronicidade.
Só para compor a síntese abaixo; não é guardada. Não escreva nada que identifique o paciente. Exemplo: doença renal do diabetes, a confirmar.
Mapa de risco de prognóstico por TFG e albuminúria (KDIGO 2024)
| TFG | A1 abaixo de 30 mg/g | A2 30 a 300 mg/g | A3 acima de 300 mg/g |
|---|---|---|---|
| G1 90 ou mais | Baixo | Moderadamente aumentado | Alto |
| G2 60 a 89 | Baixo | Moderadamente aumentado | Alto |
| G3a 45 a 59 | Moderadamente aumentado | Alto | Muito alto |
| G3b 30 a 44 | Alto | Muito alto | Muito alto |
| G4 15 a 29 | Muito alto | Muito alto | Muito alto |
| G5 abaixo de 15 | Muito alto | Muito alto | Muito alto |
Cores1, "Current CKD nomenclature used by KDIGO", p. S126: verde, risco baixo (sem outros marcadores de lesão renal, não há DRC); amarelo, risco moderadamente aumentado; laranja, risco alto; vermelho, risco muito alto. O mapa resume associações com desfechos (mortalidade, eventos cardiovasculares, falência renal, lesão renal aguda); não é a probabilidade individual.
5. Risco de falência renal: KFRE de 4 ou 8 variáveis
A KFRE (Kidney Failure Risk Equation) de 4 variáveis usa idade, sexo, TFGe e RAC. Estima a probabilidade de falência renal tratada (início de diálise ou transplante renal) em 2 e 5 anos. Calibração padrão desta página: não norte-americana8, com a norte-americana em linha menor para comparação. A de 8 variáveis acrescenta quatro exames de sangue; nela, a calibração não norte-americana vale só para 2 anos (explicação no fim do cartão).
Use as unidades da equação. Se o laudo traz albumina em g/L, divida por 10.
O que a KFRE estima e o que não estima
- Estima o risco de falência renal tratada, definida como necessidade de diálise ou transplante preemptivo9. Não dá a data para iniciar diálise e não estima mortalidade: quem morre antes de chegar à diálise não entra no desfecho.
- Desenvolvida em adultos com DRC estágios 3 a 5 (TFGe de 10 a 59 mL/min/1,73 m²) acompanhados por nefrologistas no Canadá9 e validada em 31 coortes de mais de 30 países com DRC estágios 3 a 5; fora da América do Norte, a equação original superestimava o risco em parte das coortes, e o fator de calibração reduz o risco basal em 32,9 % em 2 anos e 16,5 % em 5 anos8.
- A KDIGO 2024 recomenda uma equação de risco validada externamente em DRC G3 a G51, Recomendação 2.2.1, 1A, p. S156 e alerta que essas equações podem não valer em G1 e G21, Ponto de prática 2.2.4, p. S156.
- Não usar em lesão renal aguda, em diálise ou em transplantados renais.
- 8 variáveis: soma albumina, fósforo, bicarbonato e cálcio séricos à equação de 4 variáveis9. Coeficientes e calibração norte-americana conferidos em Kang e colaboradores10, Tabela 7; calibração não norte-americana no material suplementar de Ramspek e colaboradores11. O cálcio é o corrigido, como pede a calculadora oficial.
- Por que a página não mostra a calibração não norte-americana de 5 anos na equação de 8 variáveis: o valor que circula (risco basal 0,9245) dá risco maior fora da América do Norte do que dentro (0,9301), o contrário do que acontece na equação de 4 variáveis e do que descreve a recalibração8. Até a conferência no apêndice original, os 5 anos da equação de 8 variáveis saem na calibração norte-americana.
- Para discussão, a KDIGO 2024 cita limiares de risco que podem apoiar decisões de encaminhamento e preparo1, Pontos de prática 2.2.1 a 2.2.3, p. S156: risco em 5 anos de 3 % a 5 % para encaminhamento ao nefrologista; em 2 anos acima de 10 % para cuidado multiprofissional; em 2 anos acima de 40 % para educação sobre modalidades e preparo para terapia renal substitutiva. Sempre somados à TFGe, à RAC e ao quadro clínico.
6. Dose de medicamento: Cockcroft-Gault e TFGe sem indexação
Para classificar a DRC, usa-se a TFGe indexada (mL/min/1,73 m²). Para dose de medicamento, o que importa é o quanto este paciente filtra, em mL/min. Muitas bulas foram escritas com o clearance de creatinina de Cockcroft-Gault12, que o cartão calcula com o peso atual (o artigo original fala apenas em peso); a superfície corporal usa a fórmula de DuBois13; a KDIGO 2024 orienta considerar a TFG na dose dos medicamentos de eliminação renal e, nos extremos de peso, usar a TFGe sem indexação1, Pontos de prática 4.2.1 e 4.2.4, p. S249.
Necessária só para a TFGe sem indexação. Exemplo: 168.
Qual usar e quando
- Bula que fala em "clearance de creatinina": os estudos do medicamento quase sempre usaram Cockcroft-Gault. Use o mesmo número que a bula usou.
- Bula que fala em "TFG" ou "TFGe": use a TFGe; no paciente muito pequeno ou muito grande, a TFGe sem indexação (mL/min)1, Ponto de prática 4.2.4, p. S249.
- Cockcroft-Gault foi desenvolvida em homens internados, com creatinina por método antigo, e usa o peso: edema e obesidade superestimam o clearance12. Não serve para classificar DRC.
- Margem terapêutica estreita (por exemplo, aminoglicosídeo, quimioterápico, anticoagulante): se o número muda a dose, discuta medida mais precisa com o professor1, Ponto de prática 4.2.4, p. S249.
7. TFGe com cistatina C
A cistatina C não depende da massa muscular. A KDIGO 2024 recomenda a TFGe por creatinina e cistatina C quando a TFGe só por creatinina é menos confiável e o número muda a decisão1, Recomendação 1.2.2.1, 1C, p. S151. Equações: CKD-EPI 2012 só com cistatina C14, mantida em 2021, e CKD-EPI 2021 combinada, sem raça15.
Disponibilidade. A cistatina C raramente está disponível para os pacientes do ambulatório. O cartão serve para entender quando ela muda a leitura e para interpretar o exame quando vier.
Exemplo: 1,4. Método padronizado (calibrado ao material de referência internacional).
Quando a creatinina engana (KDIGO 2024, Tabela 8)
- Pouca massa muscular: transtorno alimentar, amputação acima do joelho, lesão medular, desnutrição.
- Muita massa muscular: atleta, fisiculturismo.
- Dieta: vegetariana, pobre ou rica em proteína, suplemento de creatina.
- Obesidade classe III: a combinada foi a mais acurada.
Situações e comentários resumidos da tabela de indicações da cistatina C1, Tabela 8, p. S152. Na desnutrição com inflamação, a própria combinada perde acurácia e a diretriz sugere TFG medida para decisões de tratamento.
8. Cálcio corrigido pela albumina
Parte do cálcio sérico circula ligada à albumina. Com albumina baixa, o cálcio total cai sem que o cálcio ionizado, o que age, tenha caído. A correção estima o total que o paciente teria com albumina de 4,0 g/dL. A forma usada no Brasil é Ca + 0,8 × (4,0 − albumina)16; a fórmula original de Payne usava fator 1,017.
Limite na DRC. A diretriz brasileira de distúrbio mineral e ósseo da DRC prefere o cálcio ionizado e aceita o total corrigido pela albumina só quando o ionizado não está disponível (opinião de especialistas)16. Na DRC, o cálcio corrigido concorda mal com o ionizado18. Quando o valor muda a conduta, peça cálcio ionizado.
9. Acidose metabólica: ânion gap e compensação
A acidose metabólica é frequente na DRC avançada. A KDIGO 2024 sugere evitar bicarbonato sérico abaixo de 18 mmol/L no adulto1, Ponto de prática 3.10.1, p. S222. O ânion gap separa as acidoses por acúmulo de ácido (gap aumentado) das por perda de bicarbonato ou ganho de cloreto (gap normal).
Como ler o ânion gap
- Não há valor normal universal: depende do método do laboratório. Compare com a faixa do laudo19.
- Albumina baixa reduz o gap e pode esconder um gap aumentado: some 2,5 para cada 1 g/dL de albumina abaixo de 4,020.
- Compensação: na acidose metabólica pura, a pCO₂ esperada é 1,5 × HCO₃ + 8 (± 2), forma usual da fórmula de Winters21. Acima disso, há também acidose respiratória; abaixo, alcalose respiratória.
Explorar a fisiologia
Henderson-Hasselbalch: o pH depende da razão entre bicarbonato (rim) e pCO₂ (pulmão), não de cada um isolado22, Unidade V.
pH =
pH = 6,1 + log₁₀ (HCO₃ ÷ (0,03 × pCO₂)). Modelo simplificado: não substitui a gasometria nem a análise completa do distúrbio.
10. Sal ingerido: sódio urinário de 24 horas
No estado estável, quase todo o sódio ingerido sai na urina. O sódio da urina de 24 horas mostra quanto sal o paciente come, e é o melhor dado para conversar sobre a dieta. Meta: menos de 2 g de sódio por dia, o que equivale a 5 g de sal2, p. 53; 23, p. 2; 1, Recomendação 3.3.2.1, 2C, p. S157.
mEq e mmol de sódio são iguais. Se o laudo traz concentração (mEq/L) e volume, multiplique: concentração × volume em litros.
Conversão: 1 g de cloreto de sódio contém 17,1 mmol de sódio (massa molar 58,44 g/mol); 1 mmol de sódio pesa 23 mg. Diurético, coleta incompleta e dia atípico mudam o resultado.
Qual é a sua proposta?
Caso fictício: TFGe de 52 mL/min/1,73 m² com RAC de 25 mg/g em duas amostras, sem outras alterações. É DRC?
Comentário
Depende de um dado que o enunciado não deu: há quanto tempo a TFGe está abaixo de 60. As duas amostras de urina confirmam A1 (RAC abaixo de 30 mg/g), não albuminúria. Mas TFG abaixo de 60 mL/min/1,73 m² é, sozinha, critério de DRC, desde que persista por pelo menos 3 meses1, Tabela 1, p. S137; o corte não muda com a idade nessa tabela.
- Se houver TFGe abaixo de 60 há mais de 3 meses: DRC categoria G3a e A1, risco moderadamente aumentado no mapa da KDIGO1, p. S126. Falta a causa.
- Se for um exame único: "achado a confirmar". Repetir creatinina e procurar exames antigos1, Ponto de prática 1.1.3.1, p. S149.
- Antes de rotular, perguntar o que mexe com a creatinina sem mexer na filtração: massa muscular, dieta, suplemento de creatina, medicamentos que reduzem a secreção tubular1, Tabela 8, p. S152. Quando a dúvida muda a conduta, a diretriz recomenda TFGe por creatinina e cistatina C1, Recomendação 1.2.2.1, 1C, p. S151.
Alternativas para discussão: repetir creatinina e RAC; buscar exames anteriores; cistatina C se disponível; investigar causa. O que falta saber: exames anteriores, uso de medicamentos, sedimento urinário, imagem renal, pressão arterial e glicemia.
Na discussão do ambulatório
O detalhe que passa despercebido: a creatinina "nova" colhida na semana em que o paciente teve diarreia, começou um diurético ou subiu a dose do inibidor da enzima conversora. Antes de calcular, pergunto quando e em que contexto o exame foi colhido.
A pergunta que muda a decisão: "Qual era a creatinina há 3 meses ou mais?" Sem essa resposta, escrevo "achado a confirmar", não "DRC".
O que precisa ser individualizado: massa muscular (amputação, sarcopenia, atleta), gestação, peso extremo para dose de medicamento e a unidade que o laboratório usou. A mesma TFGe pode significar coisas diferentes em pessoas diferentes; o número entra na discussão, não a substitui.
Referências: lista completa da área de ensino, com links
Na KFRE de 8 variáveis, o risco de 5 anos sai na calibração norte-americana até a conferência do valor não norte-americano (ver "O que a KFRE estima e o que não estima").