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Ensino em NefrologiaDr. Giuseppe Gatto · ambulatório
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Glomérulo e arteríolas: a pressão intraglomerular

A taxa de filtração glomerular (TFG; quando estimada pela creatinina, TFGe) depende da pressão dentro do capilar glomerular, e essa pressão depende do tônus de duas arteríolas: a aferente, que entra, e a eferente, que sai. Ligue uma ou várias situações e veja o que acontece. O modelo é qualitativo e didático: mostra a direção do efeito, não o tamanho. O contexto é o paciente com doença renal crônica (DRC) no ambulatório.

Versão de demonstração, em revisão pelo professor: números e textos ainda passam pela revisão final.

Explorar a fisiologia
Modelo simplificado para entender o mecanismo. As setas mostram direção, não intensidade, e o modelo olha um néfron com as outras variáveis paradas. Na pessoa real, volemia, autorregulação, estenose de artéria renal, insuficiência cardíaca e outros medicamentos mudam a resposta; uma queda da TFGe, sozinha, não separa efeito hemodinâmico de lesão.

Em resumo

Comece por: glomérulo interativo · a creatinina que sobe · transplantado

1. Glomérulo interativo

Situações (pode ligar mais de uma):

Siglas: IECA, inibidor da enzima conversora da angiotensina; BRA, bloqueador do receptor da angiotensina; iSGLT2, inibidor do cotransportador sódio-glicose tipo 2.

Glomérulo com arteríola aferente, capilar glomerular, arteríola eferente e mácula densa; quatro regiões selecionáveis Arteríola aferente sem mudança Arteríola eferente sem mudança Capilar glomerular feedback Máculadensa
Esquema didático, fora de escala. A espessura da arteríola mostra o tônus e o texto ao lado diz o estado. Toque numa estrutura para ver a explicação.

As situações, uma a uma

SituaçãoAferenteEferentePressão intraglomerular

Hemodinâmica: fisiologia de livro-texto. O mecanismo do iSGLT2 pela mácula densa está descrito em Nardone e colaboradores 2024 (seção "SGLT2 inhibitors"). Afirmações de manejo abaixo vêm da KDIGO e da Diretriz Brasileira de Hipertensão.

2. No ambulatório: a creatinina que sobe

Discutir uma conduta
A partir daqui a página sai do modelo e entra na decisão: cada afirmação traz critério, exceções e fonte com página. A conduta do caso real é decidida com o professor.

Elevação inicial da creatinina após IECA ou BRA exige avaliação do contexto

Ao bloquear a angiotensina II, a eferente dilata, a pressão intraglomerular cai e a TFG cai junto. É a mesma queda de pressão que protege o glomérulo a longo prazo, e por isso uma alta discreta da creatinina no início é esperada. O percentual é um critério de acompanhamento, não uma regra que dispense o raciocínio: o que decide é o conjunto de prazo, volume, potássio, sintomas e medicamentos associados.

Com esse contexto avaliado:

Nota de fonte: o gatilho de 30 % na KDIGO 2022 e na KDIGO 2024

Nota de fonte: na KDIGO 2022 o limite de 30 % é o Ponto de prática 1.2.3, não uma recomendação graduada. O algoritmo da KDIGO 2022 usa aumento da creatinina39, Figura 4, página S21; o da KDIGO 2024 passou a usar queda de 30 % ou mais na TFGe1, Figura 21, página S214.

Se subir mais de 30 %

Os algoritmos das duas diretrizes mandam procurar a causa antes de mexer no IECA ou BRA39, Figura 4, página S21; 1, Figura 21, página S214:

iSGLT2: a queda inicial também é esperada

Mais sódio chega à mácula densa, a aferente se contrai e a TFG cai no início95, seção "SGLT2 inhibitors". Uma queda reversível da TFGe ao iniciar o iSGLT2 pode ocorrer e em geral não é indicação de suspender39, Ponto de prática 1.3.5, página S21, com justificativa na página S48; 1, Ponto de prática 3.7.3, página S159. Se há risco de hipovolemia, considerar reduzir tiazídico ou diurético de alça antes de começar e acompanhar o volume39, Ponto de prática 1.3.4, página S21.

Potássio

A hipercalemia associada ao IECA ou BRA muitas vezes é manejada com medidas para baixar o potássio, em vez de reduzir a dose ou suspender39, Ponto de prática 1.2.5, página S20; 1, Ponto de prática 3.6.3, página S159. As medidas listadas no algoritmo: rever medicamentos associados, moderar o potássio da dieta e considerar diurético, bicarbonato de sódio e quelantes de potássio39, Figura 4, página S21. Reduzir a dose ou suspender cabe na hipotensão sintomática ou na hipercalemia não controlada apesar do tratamento39, Ponto de prática 1.2.6, página S21.

Caso fictício: mulher de 66 anos, DRC com albuminúria, começou losartana há 3 semanas. A creatinina foi de 1,4 para 1,7 mg/dL, potássio 5,0 mmol/L, pressão controlada, sem sintomas. O que você propõe?

Comentário

  • A conta: (1,7 - 1,4) / 1,4 = 21 % de alta da creatinina, abaixo de 30 % em menos de 4 semanas. Com pressão controlada, sem sintomas, potássio de 5,0 e sem outra causa de piora, o Ponto de prática 1.2.3 da KDIGO 202239, página S20 apoia manter. O número sozinho não decidiria: com hipotensão sintomática ou hiperpotassemia não controlada, a conduta mudaria39, Ponto de prática 1.2.6, página S21.
  • O que observar: potássio dentro do esperado para quem acabou de iniciar o bloqueio; repetir os exames conforme o Ponto de prática 1.2.2 (2 a 4 semanas após mudança de dose).
  • Alternativas para discussão: manter a dose e repetir; ou aumentar a dose até a máxima tolerada, se a pressão e o potássio permitirem, como pede a Recomendação 1.2.139, página S20. Losartana: 50 a 100 mg por dia, em 1 a 2 tomadas2, Quadro 7.5, p. 62.
  • O que falta saber: se a paciente tem vômitos, diarreia ou usa AINE; se houve mudança de diurético.

Caso fictício: homem de 72 anos, hipertenso com DRC, em enalapril e hidroclorotiazida. Teve lombalgia e tomou ibuprofeno por uma semana, comendo pouco. A creatinina foi de 1,5 para 2,4 mg/dL. O que aconteceu e o que você propõe?

Comentário

  • O mecanismo: "triplo golpe". O diurético e a ingestão baixa reduzem o volume; a aferente perde as prostaglandinas que a mantinham dilatada (AINE) e a eferente perde a angiotensina II que a mantinha contraída (IECA). A pressão intraglomerular despenca (fisiologia de livro-texto; ligue as três situações no desenho).
  • A conta: alta de 60 %, acima do limite de 30 %: seguir o algoritmo39, Figura 4, página S21: procurar lesão renal aguda, corrigir o volume, rever diurético e AINE.
  • Alternativas para discussão: suspender o AINE, avaliar volume e a necessidade de pausar temporariamente o diurético e o IECA, conforme gravidade, potássio e sintomas; depois de resolvido o quadro, discutir a reintrodução do IECA: a KDIGO 2024 orienta garantir a reintrodução após a resolução do evento adverso, para não privar o paciente de um medicamento necessário (texto escrito para a hipercalemia1, seção 3.6, página S213).
  • O que falta saber: potássio, sódio, exame de urina, débito urinário, pressão em pé e sentado, se há sinais de gravidade que exigem avaliação imediata.

3. No transplantado renal

Discutir uma conduta
O transplantado é acompanhado pela equipe de transplante. Esta seção explica por que a hemodinâmica muda e o que as diretrizes dizem; não substitui o protocolo do centro.

O enxerto é um rim único, sem a reserva do rim contralateral. Quase sempre funciona sob efeito de um inibidor de calcineurina (tacrolimo ou ciclosporina), que já mantém a aferente contraída106, seção "Acute Nephrotoxicity". Cada peça abaixo tem fonte própria; a soma é raciocínio fisiológico, não um efeito medido em estudo.

Efeito de cada componente sobre a hemodinâmica do enxerto e a fonte
ComponenteOnde ageO que a fonte diz
Inibidor de calcineurinaContrai a aferenteQueda reversível do fluxo e da TFG na fase aguda; depleção de volume e diurético potencializam a toxicidade106, seção "Acute Nephrotoxicity". Também causa hipercalemia106, seção "Hyperkalemia"; 107.
BRA ou IECADilata a eferenteEvitar o BRA no pós-transplante precoce até a função do enxerto estabilizar: a queda aguda da TFG pode ser confundida com rejeição26, implementação da Recomendação 4.1, p. S57. No ensaio com ramipril em transplantados com proteinúria, não houve benefício em desfechos renais e os eventos adversos foram mais frequentes (38 % contra 22 %)108.
iSGLT2Contrai a aferente (feedback tubuloglomerular)Queda da TFG medida de 4,2 mL/min/1,73 m² na primeira semana com dapagliflozina109. Menor tempo desde o transplante e vale de tacrolimo mais alto associaram-se a queda inicial maior110.
Diurético ou hipovolemiaReduz a pressão que chega ao rimPotencializa a vasoconstrição do inibidor de calcineurina106, seção "Acute Nephrotoxicity". Antes de iniciar iSGLT2 com risco de hipovolemia, considerar reduzir o diurético39, Ponto de prática 1.3.4, página S21.

O que as diretrizes dizem

iSGLT2 no transplantado: o que veio depois da KDIGO 2022

Caso fictício: homem de 54 anos, transplantado renal há 4 anos, em tacrolimo, PA 146/88 mmHg no consultório, proteinúria. Ele usa furosemida. Um colega sugere iniciar losartana e dapagliflozina na mesma consulta. Como você raciocina?

Comentário

  • A soma: o tacrolimo contrai a aferente, a dapagliflozina também (pela mácula densa), a losartana dilata a eferente e a furosemida reduz o volume. No rim único, cada efeito baixa a pressão intraglomerular; juntos, a queda da TFG pode ser maior e mais difícil de separar de rejeição ou de toxicidade do tacrolimo (raciocínio fisiológico; fontes por componente na tabela acima).
  • O que a diretriz apoia: com proteinúria, BRA como primeira linha26, Recomendação 4.1 e implementação, p. S54 e S57. A dapagliflozina no transplantado está fora da recomendação da KDIGO 202239, Ponto de prática 1.3.7, p. S21.
  • Alternativas para discussão: uma mudança de cada vez, com creatinina, potássio e nível de tacrolimo repetidos antes da próxima; avaliar o volume antes de somar; decidir com a equipe de transplante.
  • O que falta saber: creatinina basal e tendência, potássio, vale do tacrolimo, sinais de volume, se há diabetes, uso de sulfametoxazol com trimetoprima.

Na discussão do ambulatório

Alternativas para discussão e o que falta saber

Referências: lista completa da área de ensino, com links

Fora desta página: imunossupressão, rejeição e o protocolo de cada centro de transplante. O desenho soma as situações de forma qualitativa e não estima o tamanho da queda da TFG.