Glomérulo e arteríolas: a pressão intraglomerular
A taxa de filtração glomerular (TFG; quando estimada pela creatinina, TFGe) depende da pressão dentro do capilar glomerular, e essa pressão depende do tônus de duas arteríolas: a aferente, que entra, e a eferente, que sai. Ligue uma ou várias situações e veja o que acontece. O modelo é qualitativo e didático: mostra a direção do efeito, não o tamanho. O contexto é o paciente com doença renal crônica (DRC) no ambulatório.
Versão de demonstração, em revisão pelo professor: números e textos ainda passam pela revisão final.
Explorar a fisiologia
Modelo simplificado para entender o mecanismo. As setas mostram direção, não intensidade, e o modelo olha um néfron com as outras variáveis paradas. Na pessoa real, volemia, autorregulação, estenose de artéria renal, insuficiência cardíaca e outros medicamentos mudam a resposta; uma queda da TFGe, sozinha, não separa efeito hemodinâmico de lesão.
Em resumo
- Contrair a aferente ou dilatar a eferente: pressão intraglomerular e TFG caem. O contrário: a pressão sobe e a TFG se mantém ou sobe.
- Inibidor da enzima conversora (IECA) ou bloqueador do receptor (BRA) dilata a eferente; o inibidor do SGLT2 contrai a aferente. Queda inicial esperada, mas avalie o contexto.
- Creatinina subiu mais de 30 %: procure a causa antes de mexer no bloqueio.
- Diurético, pouca ingestão, anti-inflamatório e IECA juntos: o "triplo golpe".
- No transplantado, o tacrolimo já contrai a aferente de um rim único: some uma mudança de cada vez (seção 3).
Comece por: glomérulo interativo · a creatinina que sobe · transplantado
1. Glomérulo interativo
Situações (pode ligar mais de uma):
Siglas: IECA, inibidor da enzima conversora da angiotensina; BRA, bloqueador do receptor da angiotensina; iSGLT2, inibidor do cotransportador sódio-glicose tipo 2.
As situações, uma a uma
| Situação | Aferente | Eferente | Pressão intraglomerular |
|---|
Hemodinâmica: fisiologia de livro-texto. O mecanismo do iSGLT2 pela mácula densa está descrito em Nardone e colaboradores 2024 (seção "SGLT2 inhibitors"). Afirmações de manejo abaixo vêm da KDIGO e da Diretriz Brasileira de Hipertensão.
2. No ambulatório: a creatinina que sobe
Discutir uma conduta
A partir daqui a página sai do modelo e entra na decisão: cada afirmação traz critério, exceções e fonte com página. A conduta do caso real é decidida com o professor.
Elevação inicial da creatinina após IECA ou BRA exige avaliação do contexto
Ao bloquear a angiotensina II, a eferente dilata, a pressão intraglomerular cai e a TFG cai junto. É a mesma queda de pressão que protege o glomérulo a longo prazo, e por isso uma alta discreta da creatinina no início é esperada. O percentual é um critério de acompanhamento, não uma regra que dispense o raciocínio: o que decide é o conjunto de prazo, volume, potássio, sintomas e medicamentos associados.
- Prazo: a referência vale para as primeiras 4 semanas após iniciar ou aumentar a dose; uma piora mais tardia é outra pergunta.
- Volume: diurético recente, vômitos, diarreia ou ingestão baixa mudam a leitura.
- Potássio e sintomas: hipotensão sintomática ou hiperpotassemia não controlada apesar do tratamento justificam reduzir a dose ou suspender, mesmo com alta pequena da creatinina1, Ponto de prática 3.6.5, página S159; 39, Ponto de prática 1.2.6, página S21.
- Medicamentos associados: anti-inflamatório, diurético e inibidor de calcineurina.
- Creatinina não é TFGe: uma alta de 30 % na creatinina não equivale a uma queda de 30 % na TFGe; a KDIGO 2022 usa a creatinina e a Figura 21 da KDIGO 2024 usa a queda da TFGe como gatilho de investigação. Não converta um percentual no outro.
Com esse contexto avaliado:
- Conferir pressão arterial, creatinina e potássio em 2 a 4 semanas após iniciar ou aumentar a dose39, Ponto de prática 1.2.2, página S20; 1, Ponto de prática 3.6.2, página S159.
- Na ausência de hipotensão sintomática, de hiperpotassemia não controlada e de outra causa de piora, o IECA ou BRA em geral é mantido, salvo se a creatinina subir mais de 30 % em 4 semanas após o início ou o aumento de dose39, Ponto de prática 1.2.3, página S20; 1, Ponto de prática 3.6.4, página S159.
- Quedas de TFG acima de 30 % depois de iniciar terapias hemodinamicamente ativas excedem a variação esperada e pedem avaliação1, Ponto de prática 2.1.4, página S155. A justificativa lembra que quedas agudas reversíveis são comuns e que não se deve ceder ao impulso de suspender esses agentes protetores1, página S197.
- Manter o IECA ou BRA mesmo com TFGe abaixo de 30 mL/min/1,73 m²1, Ponto de prática 3.6.7, página S159. A Diretriz Brasileira de Hipertensão 2025 recomenda monitorar potássio e função renal durante o tratamento da hipertensão na DRC2, recomendação forte, certeza alta, página 71.
Nota de fonte: o gatilho de 30 % na KDIGO 2022 e na KDIGO 2024
Nota de fonte: na KDIGO 2022 o limite de 30 % é o Ponto de prática 1.2.3, não uma recomendação graduada. O algoritmo da KDIGO 2022 usa aumento da creatinina39, Figura 4, página S21; o da KDIGO 2024 passou a usar queda de 30 % ou mais na TFGe1, Figura 21, página S214.
Se subir mais de 30 %
Os algoritmos das duas diretrizes mandam procurar a causa antes de mexer no IECA ou BRA39, Figura 4, página S21; 1, Figura 21, página S214:
- rever causas de lesão renal aguda;
- corrigir depleção de volume (hipovolemia, diurético em excesso);
- reavaliar medicamentos associados, como diuréticos e anti-inflamatórios não esteroides (AINE);
- considerar estenose de artéria renal;
- reduzir a dose ou suspender o IECA ou BRA só se essas medidas não resolverem.
iSGLT2: a queda inicial também é esperada
Mais sódio chega à mácula densa, a aferente se contrai e a TFG cai no início95, seção "SGLT2 inhibitors". Uma queda reversível da TFGe ao iniciar o iSGLT2 pode ocorrer e em geral não é indicação de suspender39, Ponto de prática 1.3.5, página S21, com justificativa na página S48; 1, Ponto de prática 3.7.3, página S159. Se há risco de hipovolemia, considerar reduzir tiazídico ou diurético de alça antes de começar e acompanhar o volume39, Ponto de prática 1.3.4, página S21.
Potássio
A hipercalemia associada ao IECA ou BRA muitas vezes é manejada com medidas para baixar o potássio, em vez de reduzir a dose ou suspender39, Ponto de prática 1.2.5, página S20; 1, Ponto de prática 3.6.3, página S159. As medidas listadas no algoritmo: rever medicamentos associados, moderar o potássio da dieta e considerar diurético, bicarbonato de sódio e quelantes de potássio39, Figura 4, página S21. Reduzir a dose ou suspender cabe na hipotensão sintomática ou na hipercalemia não controlada apesar do tratamento39, Ponto de prática 1.2.6, página S21.
Caso fictício: mulher de 66 anos, DRC com albuminúria, começou losartana há 3 semanas. A creatinina foi de 1,4 para 1,7 mg/dL, potássio 5,0 mmol/L, pressão controlada, sem sintomas. O que você propõe?
Comentário
- A conta: (1,7 - 1,4) / 1,4 = 21 % de alta da creatinina, abaixo de 30 % em menos de 4 semanas. Com pressão controlada, sem sintomas, potássio de 5,0 e sem outra causa de piora, o Ponto de prática 1.2.3 da KDIGO 202239, página S20 apoia manter. O número sozinho não decidiria: com hipotensão sintomática ou hiperpotassemia não controlada, a conduta mudaria39, Ponto de prática 1.2.6, página S21.
- O que observar: potássio dentro do esperado para quem acabou de iniciar o bloqueio; repetir os exames conforme o Ponto de prática 1.2.2 (2 a 4 semanas após mudança de dose).
- Alternativas para discussão: manter a dose e repetir; ou aumentar a dose até a máxima tolerada, se a pressão e o potássio permitirem, como pede a Recomendação 1.2.139, página S20. Losartana: 50 a 100 mg por dia, em 1 a 2 tomadas2, Quadro 7.5, p. 62.
- O que falta saber: se a paciente tem vômitos, diarreia ou usa AINE; se houve mudança de diurético.
Caso fictício: homem de 72 anos, hipertenso com DRC, em enalapril e hidroclorotiazida. Teve lombalgia e tomou ibuprofeno por uma semana, comendo pouco. A creatinina foi de 1,5 para 2,4 mg/dL. O que aconteceu e o que você propõe?
Comentário
- O mecanismo: "triplo golpe". O diurético e a ingestão baixa reduzem o volume; a aferente perde as prostaglandinas que a mantinham dilatada (AINE) e a eferente perde a angiotensina II que a mantinha contraída (IECA). A pressão intraglomerular despenca (fisiologia de livro-texto; ligue as três situações no desenho).
- A conta: alta de 60 %, acima do limite de 30 %: seguir o algoritmo39, Figura 4, página S21: procurar lesão renal aguda, corrigir o volume, rever diurético e AINE.
- Alternativas para discussão: suspender o AINE, avaliar volume e a necessidade de pausar temporariamente o diurético e o IECA, conforme gravidade, potássio e sintomas; depois de resolvido o quadro, discutir a reintrodução do IECA: a KDIGO 2024 orienta garantir a reintrodução após a resolução do evento adverso, para não privar o paciente de um medicamento necessário (texto escrito para a hipercalemia1, seção 3.6, página S213).
- O que falta saber: potássio, sódio, exame de urina, débito urinário, pressão em pé e sentado, se há sinais de gravidade que exigem avaliação imediata.
3. No transplantado renal
Discutir uma conduta
O transplantado é acompanhado pela equipe de transplante. Esta seção explica por que a hemodinâmica muda e o que as diretrizes dizem; não substitui o protocolo do centro.
O enxerto é um rim único, sem a reserva do rim contralateral. Quase sempre funciona sob efeito de um inibidor de calcineurina (tacrolimo ou ciclosporina), que já mantém a aferente contraída106, seção "Acute Nephrotoxicity". Cada peça abaixo tem fonte própria; a soma é raciocínio fisiológico, não um efeito medido em estudo.
| Componente | Onde age | O que a fonte diz |
|---|---|---|
| Inibidor de calcineurina | Contrai a aferente | Queda reversível do fluxo e da TFG na fase aguda; depleção de volume e diurético potencializam a toxicidade106, seção "Acute Nephrotoxicity". Também causa hipercalemia106, seção "Hyperkalemia"; 107. |
| BRA ou IECA | Dilata a eferente | Evitar o BRA no pós-transplante precoce até a função do enxerto estabilizar: a queda aguda da TFG pode ser confundida com rejeição26, implementação da Recomendação 4.1, p. S57. No ensaio com ramipril em transplantados com proteinúria, não houve benefício em desfechos renais e os eventos adversos foram mais frequentes (38 % contra 22 %)108. |
| iSGLT2 | Contrai a aferente (feedback tubuloglomerular) | Queda da TFG medida de 4,2 mL/min/1,73 m² na primeira semana com dapagliflozina109. Menor tempo desde o transplante e vale de tacrolimo mais alto associaram-se a queda inicial maior110. |
| Diurético ou hipovolemia | Reduz a pressão que chega ao rim | Potencializa a vasoconstrição do inibidor de calcineurina106, seção "Acute Nephrotoxicity". Antes de iniciar iSGLT2 com risco de hipovolemia, considerar reduzir o diurético39, Ponto de prática 1.3.4, página S21. |
O que as diretrizes dizem
- Meta de PA: abaixo de 130/80 mmHg, com medida padronizada no consultório26, Ponto de prática 4.1, p. S54. A meta de PAS abaixo de 120 não se estende ao transplante26, p. S54. A DBHA 2025 também adota < 130/80 mmHg para o transplantado2, p. 70.
- Primeira linha: BCC di-hidropiridínico ou BRA, sem hierarquia entre os dois26, Recomendação 4.1, 1C, p. S54. Com proteinúria, considerar primeiro o BRA; com sobrecarga de volume, tratar antes com diurético; na gestação ou em quem planeja engravidar, BCC26, p. S57.
- IECA ou BRA no transplantado com diabetes e albuminúria: a Recomendação 1.2.1 da KDIGO 2022 se aplica também ao transplantado39, p. S33.
- iSGLT2: a recomendação de iSGLT2 na DRC com diabetes não se aplica ao transplantado, por falta de estudo adequado e pelo risco de infecção na imunossupressão39, Ponto de prática 1.3.7, p. S21. A KDIGO 2024 não tem o transplantado como foco1, p. S133.
iSGLT2 no transplantado: o que veio depois da KDIGO 2022
- Metanálise de 21 estudos com iSGLT2 (3.856 pacientes), a maioria observacional: menor mortalidade e melhores desfechos renais e cardiovasculares nos estudos com controle pareado, função renal estável e sem aumento de infecções111.
- Ensaio brasileiro com 208 transplantados com disfunção crônica do enxerto, dapagliflozina por 12 meses: reduziu proteinúria, PAS e peso, sem diferença global na TFGe; no mês 12, a TFGe foi maior no placebo (39,4 contra 36,5)112.
- Leitura: os ensaios são pequenos e curtos, sem desfechos duros; nenhum mostrou preservação da TFG em 12 meses. A posição formal vigente continua sendo o Ponto de prática 1.3.7 da KDIGO 2022.
Caso fictício: homem de 54 anos, transplantado renal há 4 anos, em tacrolimo, PA 146/88 mmHg no consultório, proteinúria. Ele usa furosemida. Um colega sugere iniciar losartana e dapagliflozina na mesma consulta. Como você raciocina?
Comentário
- A soma: o tacrolimo contrai a aferente, a dapagliflozina também (pela mácula densa), a losartana dilata a eferente e a furosemida reduz o volume. No rim único, cada efeito baixa a pressão intraglomerular; juntos, a queda da TFG pode ser maior e mais difícil de separar de rejeição ou de toxicidade do tacrolimo (raciocínio fisiológico; fontes por componente na tabela acima).
- O que a diretriz apoia: com proteinúria, BRA como primeira linha26, Recomendação 4.1 e implementação, p. S54 e S57. A dapagliflozina no transplantado está fora da recomendação da KDIGO 202239, Ponto de prática 1.3.7, p. S21.
- Alternativas para discussão: uma mudança de cada vez, com creatinina, potássio e nível de tacrolimo repetidos antes da próxima; avaliar o volume antes de somar; decidir com a equipe de transplante.
- O que falta saber: creatinina basal e tendência, potássio, vale do tacrolimo, sinais de volume, se há diabetes, uso de sulfametoxazol com trimetoprima.
Na discussão do ambulatório
- O detalhe que passa despercebido: o anti-inflamatório comprado sem receita. Eu pergunto pelo nome comercial e pela dor que motivou o uso, porque "remédio para dor" raramente aparece na lista de medicamentos.
- A pergunta que muda a decisão: a creatinina subiu por causa do IECA ou o IECA revelou outra coisa? Uma alta grande logo depois de iniciar o bloqueio, sem hipovolemia nem AINE, me faz pensar em estenose de artéria renal.
- O que precisa ser individualizado: no transplantado renal em tacrolimo, a aferente já está contraída pelo inibidor de calcineurina; somar IECA, iSGLT2 ou diurético muda a hemodinâmica de um rim único (seção 3). Converse com a equipe de transplante antes.
Alternativas para discussão e o que falta saber
- Alternativas: manter o bloqueio com monitorização; corrigir volume e suspender AINE antes de mexer no IECA ou BRA; investigar estenose quando a alta não se explica.
- O que falta saber em cada caso: creatinina basal e tendência, potássio, volume, medicamentos novos (inclusive sem receita), albuminúria e o motivo da indicação do bloqueio.
Referências: lista completa da área de ensino, com links
Fora desta página: imunossupressão, rejeição e o protocolo de cada centro de transplante. O desenho soma as situações de forma qualitativa e não estima o tamanho da queda da TFG.