Complicações da DRC
À medida que a taxa de filtração glomerular estimada (TFGe) cai, o rim deixa de excretar potássio e ácido, deixa de produzir eritropoetina e de regular cálcio e fósforo. Esta página trata cada complicação com o mesmo roteiro: o que medir, quando agir, o que a evidência mostra e o que existe no Sistema Único de Saúde (SUS). Nesta versão piloto: hipercalemia, acidose metabólica, anemia, distúrbio mineral e ósseo, dislipidemia e vacinas.
Discutir uma conduta
Limiares e condutas da diretriz KDIGO 2024 de doença renal crônica (DRC), com página. A conduta do caso real é decidida com o professor; não é prescrição.
Em resumo
- Potássio alto: primeiro confira a amostra. Garrote apertado, mão fechada, hemólise e plaquetas ou leucócitos muito altos elevam o potássio do tubo, não o do paciente.
- Antes de tirar o IECA ou o BRA: corrija o que é corrigível (anti-inflamatório, trimetoprima, dieta), depois diurético, bicarbonato e quelante. Suspender é o último recurso, e o fármaco volta quando o quadro se resolve.
- 6,5 mEq/L ou mais: ação imediata, com eletrocardiograma. De 6,0 a 6,4: hospital se o paciente estiver mal ou com lesão renal aguda; se for achado inesperado, repetir em 24 horas.
- Frutas e verduras não são o vilão: processados, carnes, laticínios, sucos e sal substituto com cloreto de potássio têm mais potássio absorvível.
- Anemia: ferro antes do estimulador. A KDIGO 2026 e o PCDT do SUS usam limiares diferentes de ferritina e saturação de transferrina.
- Bicarbonato abaixo de 18 mmol/L: evitar, com tratamento. Normalizar o bicarbonato não mostrou reduzir a falência renal.
Comece por: régua do potássio · escada de condutas · régua do bicarbonato
1. Hipercalemia
Explorar a fisiologia
O rim excreta a maior parte do potássio pelo ducto coletor, sob ação da aldosterona. Com a TFG menor, sobra menos capacidade de excretar a carga de uma refeição, e o intestino passa a ter papel maior na excreção1, Tabela 25, p. S225. Os medicamentos que bloqueiam a aldosterona ou o sódio no ducto coletor retêm potássio: veja o ducto coletor no mapa de coração e vasos.
A hipercalemia é definida pela distribuição do potássio na população; nos estudos do consórcio de prognóstico da DRC, potássio acima de 5,0 mmol/L1, p. S223. É incomum com TFGe acima de 60 e aumenta à medida que ela cai: em adultos com DRC G3 A1, a prevalência ajustada foi de 8,8 % com diabetes e 4,5 % sem diabetes, chegando a 34,4 % e 23,7 % em G5 A31, p. S223. Em potássio, mmol/L e mEq/L são o mesmo número.
1.1. Antes de tratar: o potássio é real?
Ver o que altera a medida do potássio
| Situação | O que acontece | O que fazer |
|---|---|---|
| Pseudo-hipercalemia | Garrote apertado, abrir e fechar a mão na coleta, hemólise por agitação do tubo, material ou armazenamento inadequados: o potássio sai das células no tubo | Colher de novo e analisar no prazo e da forma correta1, Tabela 25, p. S225 |
| Plaquetas ou leucócitos muito altos | O soro pode superestimar o potássio | Dosar no plasma1, Tabela 25, p. S225 |
| Soro ou plasma | O soro costuma dar valor mais alto que o plasma | Usar a referência do tipo de amostra1, Tabela 25, p. S225 |
| Variação ao longo do dia | Variação de 0,24 a 0,73 mmol/L na mesma pessoa em 24 horas | Interpretar a tendência, não um valor isolado1, Tabela 25, p. S225 |
| Saída de potássio da célula | Hiperglicemia e desidratação, rabdomiólise, lise tumoral, falta de insulina, betabloqueio durante e logo após exercício, acidose não orgânica | Tratar a causa1, Tabela 25, p. S225 |
| Constipação | Na DRC avançada, o intestino excreta mais potássio; constipação reduz essa saída | Tratar a constipação1, Tabela 25, p. S225 |
A diretriz pede atenção à variabilidade do potássio: variação diurna e sazonal, soro ou plasma e medicamentos1, Ponto de prática 3.11.1.1, p. S224.
1.2. Medicamentos que elevam o potássio
Ver a lista por mecanismo
| Classe | Mecanismo | Exemplos |
|---|---|---|
| IECA e BRA | Menos angiotensina II ou receptor bloqueado: menos aldosterona | Captopril, enalapril, losartana |
| Antagonistas mineralocorticoides | Bloqueiam o receptor da aldosterona | Espironolactona, eplerenona, finerenona |
| Betabloqueadores | Menos liberação de renina | Propranolol, metoprolol, atenolol |
| Diuréticos poupadores de potássio; trimetoprima e pentamidina | Bloqueiam o canal de sódio do ducto coletor e reduzem a secreção de potássio | Amilorida, triantereno, trimetoprima |
| Anti-inflamatórios não esteroides (AINE) | Menos prostaglandinas: menos renina | Ibuprofeno, naproxeno, diclofenaco |
| Inibidores de calcineurina e digoxina | Inibem a bomba de sódio e potássio necessária à secreção no ducto coletor | Tacrolimo, ciclosporina, digoxina |
| Heparina | Menos produção de aldosterona | Heparina sódica |
Tabela 26 da KDIGO 20241, p. S226, reorganizada. Os inibidores do SGLT2 não parecem elevar o potássio1, p. S224.
1.3. Régua do potássio
Digite o potássio e marque o contexto. A régua mostra a gravidade e o que a diretriz sugere; a conduta do caso é discutida com o professor.
Esta régua trata da hipercalemia. Para potássio baixo, vale o intervalo de referência do laboratório; a régua não sugere reposição.
1.4. Escada de condutas no potássio acima de 5,5 mEq/L
Na hipercalemia que não é emergência, a diretriz propõe tratar primeiro o que é corrigível, entender o papel da dieta e dos medicamentos e só no fim mexer no bloqueio do sistema renina-angiotensina1, seção 3.11.4 e Figura 32, p. S226 e S228.
Primeiro degrau: o que é corrigível
Rever medicamentos que não são o bloqueio do eixo (anti-inflamatório, trimetoprima); avaliar a ingestão de potássio, com encaminhamento ao nutricionista, e moderar se for o caso.
Segundo degrau: medicamentos
Diurético, quando adequado; otimizar o bicarbonato sérico; quelante de potássio licenciado.
Último recurso
Reduzir a dose ou suspender o IECA, o BRA ou o antagonista mineralocorticoide. A suspensão se associa a mais eventos cardiovasculares: rever e reintroduzir quando o quadro permitir.
KDIGO 2024, Figura 321, p. S228. A hipercalemia associada ao IECA ou BRA muitas vezes se controla com medidas para baixar o potássio, sem reduzir a dose nem suspender1, Ponto de prática 3.6.3, p. S213; se o fármaco for suspenso, combine e registre quando ele volta1, Pontos de prática 4.3.2 e 4.3.3, p. S251.
1.5. Dieta
Na DRC inicial, comer alimentos naturalmente ricos em potássio parece proteger contra a progressão, e restringir frutas e verduras pode prejudicar o coração: essa restrição não é endossada1, seção 3.11.5, p. S226. Para quem tem DRC G3 a G5 com hipercalemia prévia, a orientação é limitar alimentos com potássio de alta biodisponibilidade, como os processados1, Ponto de prática 3.11.5.2, p. S226. Processados (com aditivos de potássio), carnes, laticínios, sucos e sal substituto com cloreto de potássio têm mais potássio absorvível que muitos vegetais frescos1, p. S228. A abordagem é individualizada, com nutricionista1, Ponto de prática 3.11.5.1, p. S226.
1.6. Quelantes de potássio
Os quelantes mais novos parecem ter menos problemas de tolerância e ajudam a manter o IECA, o BRA e o antagonista mineralocorticoide; a escolha depende da disponibilidade local1, Ponto de prática 3.11.2.1, p. S226.
Ver a comparação dos três quelantes
| Poliestirenossulfonato (de sódio ou de cálcio) | Patirômer | Ciclossilicato de zircônio sódico | |
|---|---|---|---|
| Mecanismo | Resina que troca sódio ou cálcio por potássio | Polímero que troca cálcio por potássio | Cristal que prende o potássio em troca de hidrogênio e sódio |
| Início do efeito | Variável, horas a dias | 4 a 7 horas | Começa em 1 hora; normaliza em geral em 24 a 48 horas |
| Dose inicial | 15 a 60 g por dia por via oral, em até 4 tomadas | 8,4 g por via oral uma vez ao dia (máximo 25,2 g) | 10 g por via oral três vezes ao dia por até 48 horas |
| Manutenção | 15 a 60 g por dia, conforme o potássio e a tolerância | 8,4 a 25,2 g uma vez ao dia | 5 g em dias alternados a 10 g uma vez ao dia |
| Outros medicamentos | Separar por pelo menos 3 horas (6 horas na gastroparesia) | Separar por pelo menos 3 horas | Separar 2 horas só dos que dependem do pH gástrico |
| Efeitos adversos | Gastrointestinais, hipopotassemia, hipocalcemia, hipomagnesemia, edema; raros e graves: necrose intestinal, sangramento, colite isquêmica, perfuração | Gastrointestinais, hipopotassemia, hipercalcemia, hipomagnesemia | Hipopotassemia e edema (cerca de 400 mg de sódio a cada 5 g) |
KDIGO 2024, Tabela 271, p. S227. Dose transcrita da tabela da diretriz; confira a bula brasileira antes de prescrever.
No Brasil: o ciclossilicato de zircônio sódico tem registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para hipercalemia em adultos desde 202078. A Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec) recomendou incorporá-lo ao SUS para a hiperpotassemia na DRC estágios 4 e 5, conforme protocolo do Ministério da Saúde, e a decisão foi publicada em maio de 202579, p. 13. Incorporar não é o mesmo que dispensar: em junho de 2025 ainda não era ofertado80, p. 1; o acesso atual e o protocolo de uso não foram verificados (situação conferida em 15/10/2026). O poliestirenossulfonato de cálcio e o patirômer não foram encontrados na parte lida da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME) 2024.
2. Acidose metabólica
Explorar a fisiologia
Com a TFG menor, o rim excreta menos hidrogênio e gera menos bicarbonato: instala-se uma acidose metabólica crônica1, seção 3.10, p. S222. O bicarbonato começa a cair com TFGe abaixo de 60 e cai mais nos estágios G4 e G51, p. S222. A acidose se associa, em estudos observacionais, a catabolismo proteico, perda muscular, inflamação e mortalidade; a causalidade não foi demonstrada1, p. S222. Para o ânion gap e a compensação respiratória, use as calculadoras.
Bicarbonato abaixo de 22 mmol/L: prevalência ajustada de 7,7 % com diabetes e 6,7 % sem diabetes em G3 A1, chegando a 38,3 % e 35,9 % em G5 A31, p. S222.
2.1. Régua do bicarbonato
Valor isolado não fecha diagnóstico: sem pH e PCO₂, não se distingue distúrbio metabólico de compensação respiratória.
2.2. O que a evidência mostra
A diretriz não deu recomendação graduada para tratar a acidose, por falta de estudos grandes1, p. S222. Numa revisão sistemática de 15 estudos, o bicarbonato de sódio oral contra placebo não mudou de forma importante o risco de falência renal (razão de risco 0,81; intervalo de confiança de 95 % de 0,54 a 1,22)1, p. S222. No maior estudo controlado por placebo (BiCARB, pessoas de 60 anos ou mais em G3 a G4 com bicarbonato abaixo de 22), não houve benefício renal nem em desempenho físico e qualidade de vida, e o custo foi maior1, p. S223.
Mesmo assim, o bicarbonato oral sobe o bicarbonato sérico e é tratamento adequado para evitar acidose mais grave: a diretriz sugere evitar bicarbonato abaixo de 18 mmol/L em adultos1, p. S223. Dietas com mais alimentos de origem vegetal reduzem a produção de ácido e controlaram a acidose de forma comparável ao bicarbonato em quatro estudos pequenos1, p. S223.
Dose do bicarbonato de sódio: a diretriz não traz dose. Use a bula ou o protocolo da instituição e monitore como diz o ponto de prática 3.10.2. No SUS, a RENAME 2024 lista o bicarbonato de sódio só na forma injetável81, p. 33.
3. Anemia
Explorar a fisiologia
O rim produz eritropoetina; com a DRC, a produção cai e a hemoglobina diminui à medida que a TFGe cai. A inflamação e a perda de sangue reduzem o ferro disponível para a medula: por isso o tratamento começa pelo ferro e só depois passa ao estimulador da eritropoese.
Anemia em adultos, pelos limiares da Organização Mundial da Saúde: hemoglobina abaixo de 13 g/dL em homens e de 12 g/dL em mulheres82, p. S29 e S30. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) do SUS usa 13 g/dL também para mulheres na pós-menopausa83, Anexo I, seção 2.
3.1. Quando dosar e o que pedir
- Frequência mínima da hemoglobina: uma vez por ano em G3, duas vezes por ano em G4, a cada 3 meses em G5 e na diálise; mais vezes com estimulador da eritropoese, hemoglobina fora da meta ou DRC que progride rápido82, Figura 5, p. S18.
- Painel inicial: hemograma, reticulócitos, ferritina e saturação de transferrina82, Ponto de prática 1.2.1, p. S18. Vitamina B12, folato, hemólise, eletroforese de proteínas, hormônio tireoestimulante e sangue oculto nas fezes entram quando o painel inicial não explica a anemia82, Ponto de prática 1.2.2, p. S19.
- Ferritina abaixo de 45 ng/mL (ou volume corpuscular médio abaixo de 80 fL sem causa genética conhecida): investigar perda de sangue82, Ponto de prática 1.2.3, p. S19.
3.2. Ferro: iniciar ou não?
Digite ferritina e saturação de transferrina e escolha a situação. O painel compara a KDIGO 2026 com o PCDT de 2017, que é o critério de acesso no SUS. Os dois divergem: discuta a diferença.
Ver via, dose e monitorização do ferro
- Via: na hemodiálise, ferro intravenoso em vez de oral ao iniciar82, Recomendação 2.2, p. S20; fora da hemodiálise, oral ou intravenoso conforme gravidade, tolerância, disponibilidade e custo82, Recomendação 2.4, p. S20. Passar ao intravenoso se o oral não funcionar em 1 a 3 meses ou não for tolerado82, Ponto de prática 2.7, p. S21.
- No SUS: sulfato ferroso 40 mg de ferro por via oral três vezes ao dia, entre as refeições; sacarato de hidróxido férrico por via intravenosa, 1.000 mg divididos em 10 sessões ou 10 dias no ataque e 100 mg a cada 15 dias na manutenção83, Anexo I, seção 8.2.
- Monitorização: hemoglobina, ferritina e saturação de transferrina a cada 3 meses sem diálise ou em diálise peritoneal e a cada 1 a 3 meses na hemodiálise82, Ponto de prática 2.5, p. S20. O PCDT manda suspender o ferro intravenoso 7 a 10 dias antes dos exames83, Anexo I, seção 9.
- Na RENAME 2024: sulfato ferroso no componente básico81, p. 39; sacarato de óxido férrico injetável81, p. 37 e alfaepoetina81, p. 33 e 34 no componente especializado.
- Infecção: considerar suspender o ferro durante infecção sistêmica82, Ponto de prática 2.8, p. S21.
3.3. Estimulador da eritropoese
| KDIGO 2026 | PCDT do SUS (2017) | |
|---|---|---|
| Quando iniciar | Na diálise, com hemoglobina de 9,0 a 10,0 g/dL ou menos82, Recomendação 3.2.1, p. S24; sem diálise, o limiar considera os sintomas82, Recomendação 3.2.2, p. S24 | Hemoglobina de 10 g/dL ou menos, com ferro adequado (ferritina acima de 100 e saturação acima de 20 %; na hemodiálise, ferritina acima de 200)83, Anexo II, seção 5 |
| Meta | Hemoglobina abaixo de 11,5 g/dL, individualizada82, Recomendação 3.3.1 e Ponto de prática 3.3.1, p. S24 | 10 a 12 g/dL; suspender temporariamente acima de 1383, Anexo II, seções 2 e 8.2 |
| Dose inicial da alfaepoetina | Cerca de 50 unidades por kg uma a duas vezes por semana sem diálise; 50 a 100 unidades por kg três vezes por semana na diálise82, Tabela 7, p. S24 | 50 a 100 unidades por kg por via subcutânea, em uma a três aplicações por semana83, Anexo II, seção 8.2 |
| Cuidados | Suspender na internação por acidente vascular cerebral agudo ou trombose do acesso82, Ponto de prática 3.4.3.4, p. S25; câncer ativo ou prévio: decisão compartilhada82, Ponto de prática 3.4.3.5, p. S25 | Exclui hipertensão não controlada (acima de 140/90 mmHg com três anti-hipertensivos); pressão pelo menos a cada 15 dias; trombose de fístula; aplasia pura da série vermelha83, Anexo II, seções 6, 8 e 9 |
Inibidores da prolil-hidroxilase do fator induzido por hipóxia (roxadustate, daprodustate): a KDIGO sugere o estimulador da eritropoese como primeira linha82, Recomendação 3.1.1, p. S23 e manda evitar a classe em quem tem câncer ativo ou evento cardiovascular ou trombose recente82, Ponto de prática 3.7.5, p. S26. No Brasil, o relatório preliminar do novo PCDT dizia em dezembro de 2024 que a classe não tinha registro na Anvisa84, p. 24; a situação atual não foi conferida.
Transfusão: pelos sintomas e sinais da anemia, não por um valor arbitrário de hemoglobina82, Ponto de prática 4.4, p. S28.
O PCDT de 2017 (Portaria SAS/MS nº 365) segue em vigor; a revisão passou por consulta pública em dezembro de 2024 e janeiro de 202584, sem portaria nova encontrada até 15/10/2026.
4. Distúrbio mineral e ósseo
Explorar a fisiologia
Com a TFG menor, o rim retém fósforo e produz menos calcitriol; o cálcio tende a cair e a paratireoide responde com mais paratormônio (PTH). As alterações começam cedo na DRC e aumentam à medida que a TFGe cai1, seção 3.13, p. S229. O conjunto (laboratório, osso e calcificação vascular) é chamado de distúrbio mineral e ósseo da DRC.
4.1. O que dosar e com que frequência
Cálcio, fósforo, PTH e fosfatase alcalina a partir de G3a85, Recomendação 3.1.1, p. 15. Escolha o estágio:
KDIGO 2017, Recomendação 3.1.285, p. 15; PCDT do SUS, item 886, item 8. O próprio PCDT traz frequências diferentes na Tabela 2 (item 3.2); esta página usa o item 8, que coincide em quase tudo com a KDIGO. A 25-hidroxivitamina D pode ser dosada, e a deficiência é corrigida como na população geral85, Recomendação 3.1.3, p. 15.
4.2. Metas
| KDIGO 2017 | PCDT do SUS (2022) | |
|---|---|---|
| Fósforo | Baixar o fósforo elevado em direção ao normal85, Recomendação 4.1.2, p. 16; tratar a elevação progressiva ou persistente85, Recomendação 4.1.5, p. 16 | Ponto de corte de 4,5 mg/dL; na diálise, aceita-se até 5,5 mg/dL86, itens 3.2 e 4 |
| Cálcio | Evitar hipercalcemia em adultos85, Recomendação 4.1.3, p. 16 | Dentro do normal, em geral 8,5 a 10 mg/dL86, item 3.2 |
| PTH sem diálise | Nível ótimo desconhecido; se sobe progressivamente ou fica acima do limite superior, avaliar fósforo alto, cálcio baixo, ingestão alta de fósforo e falta de vitamina D85, Recomendação 4.2.1, p. 16 | Sem meta numérica fora da diálise |
| PTH na diálise | Cerca de 2 a 9 vezes o limite superior do ensaio85, Recomendação 4.2.3, p. 17 | 2 a 9 vezes o limite superior do método, em geral 150 a 600 pg/mL86, item 8 |
4.3. Tratamento
- Dieta: limitar o fosfato da dieta, considerando a fonte (animal, vegetal ou aditivo)85, Recomendação 4.1.8, p. 16; o PCDT cita 800 a 1.000 mg de fósforo por dia86, item 6.1.
- Quelantes: restringir a dose dos quelantes à base de cálcio85, Recomendação 4.1.6, p. 16. No SUS: carbonato de cálcio (fósforo acima de 4,5 mg/dL em G3 a G5, ou acima de 5,5 em G5D, sem hipercalcemia) e sevelâmer, que o PCDT põe como primeira escolha fora da diálise; teto de 2.000 mg de cálcio elementar por dia em adultos86, itens 4, 6 e 7.
- Calcitriol e análogos sem diálise: não usar de rotina; reservar para G4 e G5 com hiperparatireoidismo grave e progressivo85, Recomendação 4.2.2, p. 16. O PCDT também diz que o uso não deve ser rotineiro86, item 6.2.3.
- Na diálise, para baixar o PTH: calcimimético, calcitriol, análogo da vitamina D ou combinação85, Recomendação 4.2.4, p. 17. No SUS, paricalcitol e cinacalcete com PTH de 300 pg/mL ou mais; o cinacalcete exige pelo menos 3 meses de diálise e não é usado em G3 a G5 sem diálise86, itens 4 e 5.
Na RENAME 2024: carbonato de cálcio no componente básico81, p. 26; calcitriol81, p. 26, cinacalcete81, p. 53 e paricalcitol81, p. 54 no especializado. O sevelâmer não foi conferido na edição de 2024. O cálcio corrigido pela albumina está nas calculadoras.
5. Dislipidemia
Perfil lipídico na avaliação inicial da DRC; na maioria dos pacientes, não é preciso repetir87, Recomendações 1.1 e 1.2, p. 263. Não há meta de colesterol da lipoproteína de baixa densidade (LDL) durante o tratamento: a decisão é por risco87, capítulo 2, p. 271 a 279.
Ver as doses estudadas em G3a a G5
Doses por dia usadas nos estudos com DRC G3a a G5, inclusive diálise e transplante: fluvastatina 80 mg, atorvastatina 20 mg, rosuvastatina 10 mg, sinvastatina com ezetimiba 20 mg com 10 mg, pravastatina 40 mg, sinvastatina 40 mg, pitavastatina 2 mg; em G1 e G2, as doses da população geral87, capítulo 2, Tabela 4. A KDIGO 2024 escolhe esquemas que maximizem a redução absoluta do LDL1, Ponto de prática 3.15.1.2, p. S162. Ezetimiba isolada não é recomendada87, capítulo 2.
6. Vacinas
A pessoa com DRC, sobretudo em diálise, responde pior às vacinas: na hemodiálise, a resposta à vacina da hepatite B fica entre 50 % e 88 %, contra 90 % em adultos sem DRC com três doses ou mais88, Tabela 6, p. 42. As vacinas especiais são aplicadas nos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE).
| Vacina | Na DRC |
|---|---|
| Hepatite B | Para quem não tem imunidade: quatro doses, cada uma com o dobro da dose para a idade, aos 0, 1, 2 e 6 meses, na pré-diálise e na hemodiálise89, Quadro 1, p. 5. Sorologia (anti-HBs) 30 a 60 dias depois do esquema89, p. 3; protetor com 10 mUI/mL ou mais88, Tabela 3, p. 34. Sem resposta: repetir o esquema (na pré-diálise, uma única vez)89, Quadro 1, p. 5. Na hemodiálise, repetir a sorologia todo ano e dar reforço se cair abaixo de 1089, p. 4. |
| Influenza | Indicada na nefropatia crônica e na síndrome nefrótica88, p. 23, todo ano. |
| Pneumocócica | Nefropatia crônica, hemodiálise e síndrome nefrótica estão entre as indicações da vacina conjugada 20-valente, em dose única no adulto; com duas doses prévias da polissacarídica 23-valente, considera-se vacinado; com uma, aplicar a 20-valente pelo menos 1 ano depois. A 20-valente começa quando acabarem os estoques das vacinas anteriores90, seções 4.1, 5.4 e 6; a Nota Técnica 64/2026 atualizou a 52 só na faixa etária da dose única, que passou a valer a partir dos 5 anos, sem limite superior91, p. 1 e 2. |
| Varicela | Indicada antes da exposição na nefropatia crônica e na síndrome nefrótica88, p. 25. É vacina viva: no imunossuprimido, só quando o risco da doença supera o da vacina88, p. 39 a 41; antes do transplante, vacine cedo. |
O esquema da hepatite B está no Quadro 9 do Manual dos CRIE (p. 107), que não foi lido diretamente: os números vêm da nota técnica da Secretaria de Saúde do DF, que cita o Ministério da Saúde como fonte. A dose em microgramas depende do fabricante; confira a bula. Covid-19: siga a estratégia vigente do Ministério da Saúde para imunocomprometidos e pessoas com comorbidades (não conferida nesta versão). A KDIGO 2024 não traz recomendação numerada sobre vacinas.
7. Qual é a sua proposta?
Discutir uma conduta
Casos fictícios. As alternativas citam a diretriz com página.
DRC G3b A3, diabetes tipo 2, losartana 100 mg e dapagliflozina. Potássio de 5,8 mEq/L no exame de rotina; paciente bem. A residente propõe suspender a losartana. Qual é a sua proposta?
Comentário
Suspender é o último degrau, não o primeiro. Antes: confirmar o valor (coleta, hemólise), rever medicamentos (anti-inflamatório comprado sem receita, trimetoprima), avaliar a dieta (sal substituto, sucos, processados), constipação e glicemia; depois, diurético se houver indicação, corrigir o bicarbonato se estiver baixo e considerar quelante1, Figura 32, p. S228. A hipercalemia do BRA muitas vezes se controla sem reduzir a dose1, Ponto de prática 3.6.3, p. S213.
Por que não tirar logo: com A3 e diabetes, o BRA é recomendação forte1, Recomendação 3.6.3, p. S213, e a suspensão se associa a mais eventos cardiovasculares1, Figura 32, p. S228.
O que falta saber: eletrocardiograma se houver dúvida, bicarbonato, glicemia, a tendência do potássio nas últimas dosagens e a TFGe atual.
Potássio de 6,6 mEq/L em paciente com DRC G4, sem sintomas. O laboratório comenta "amostra levemente hemolisada". Repetir amanhã?
Comentário
Não. Com 6,5 ou mais, a diretriz pede ação imediata para avaliar e tratar, com exame de sangue e monitorização do eletrocardiograma1, Tabela 28, p. S227. A hemólise sugere pseudo-hipercalemia, e a coleta deve ser refeita da forma correta1, Tabela 25, p. S225, mas isso se faz agora, junto com o eletrocardiograma, e não no dia seguinte: na DRC G4 o valor pode ser real.
O que falta saber: eletrocardiograma, potássio de nova coleta sem garrote prolongado, função renal atual (lesão renal aguda?), medicamentos e glicemia.
DRC G4, bicarbonato de 20 mmol/L, sem sintomas. Iniciar bicarbonato de sódio para proteger o rim?
Comentário
Para proteger o rim, a evidência não sustenta: o bicarbonato oral não reduziu de forma importante a falência renal nos estudos controlados por placebo, e o BiCARB não mostrou benefício1, p. S222 e S223. O limiar que a diretriz sugere evitar é abaixo de 18 mmol/L1, Ponto de prática 3.10.1, p. S222. Com 20, discuta dieta com mais vegetais1, p. S223 e acompanhe.
O que muda a decisão: potássio alto (o bicarbonato faz parte da escada da hipercalemia1, Figura 32, p. S228), queda progressiva do bicarbonato e a carga de sódio do tratamento em quem tem edema ou hipertensão difícil1, Ponto de prática 3.10.2, p. S222.
DRC G4 sem diálise, hemoglobina 9,4 g/dL, ferritina 180 ng/mL, saturação de transferrina 22 %, cansaço aos esforços. Iniciar alfaepoetina?
Comentário
Primeiro o ferro. Pela KDIGO 2026, ferritina entre 100 e 300 com saturação abaixo de 25 % indica iniciar ferro sem diálise82, Recomendação 2.3, p. S20; teste na régua acima. Pelo PCDT, a ferritina de 180 com saturação acima de 20 % não configura ferropenia, e a alfaepoetina exige hemoglobina de 10 ou menos com ferritina acima de 100 e saturação acima de 20 %83, Anexo I, seção 4; Anexo II, seção 5: o paciente se enquadra no SUS.
A discussão: sem diálise, a KDIGO pede que o início do estimulador leve em conta os sintomas82, Recomendação 3.2.2, p. S24; a meta é abaixo de 11,5 g/dL82, Recomendação 3.3.1, p. S24. Antes, o painel inicial: reticulócitos e, se não explicar, B12, folato e perda de sangue82, Pontos de prática 1.2.1 e 1.2.2, p. S18 e S19.
O que falta saber: pressão arterial controlada (exclusão do PCDT), câncer ativo ou prévio, acidente vascular cerebral prévio, sangramento e reticulócitos.
Na discussão do ambulatório
O detalhe que passa despercebido. O sal "light" ou "sem sódio" é cloreto de potássio. Eu pergunto pelo nome do sal que a família usa, junto com o anti-inflamatório comprado sem receita.
A pergunta que muda a decisão. "Esse potássio é do paciente ou do tubo?" Antes de mexer no IECA ou no BRA, confirme a coleta.
O que precisa ser individualizado. A restrição de potássio na dieta: o paciente que já come pouco vegetal não precisa comer menos; o que costuma pesar são os processados.