Casos para discussão
Dois casos curtos, com perguntas em sequência. Escreva a sua proposta antes de tocar em "Ver o comentário"; o comentário do professor só aparece quando você pede.
Discutir uma conduta
Critérios, exceções e fontes com página. O resultado ou o comentário entra na discussão com o professor; não é prescrição.
Siglas desta página
PA, pressão arterial; TFGe, taxa de filtração glomerular estimada; RAC, relação albumina/creatinina urinária; DRC, doença renal crônica; DM2, diabetes melito tipo 2; IECA, inibidor da enzima conversora da angiotensina; BRA, bloqueador do receptor da angiotensina; SRA, sistema renina-angiotensina; iSGLT2, inibidor do cotransportador sódio-glicose 2; MRPA, medida residencial da pressão arterial; MAPA, monitorização ambulatorial da pressão arterial; KDIGO, Kidney Disease: Improving Global Outcomes; KFRE, Kidney Failure Risk Equation (equação de risco de falência renal); PCDT, Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas; SUS, Sistema Único de Saúde.
Caso 1. Creatinina que sobe aos poucos
Caso fictício, criado para ensino
Encaminhamento. Homem de 64 anos, encaminhado pela unidade básica de saúde porque "a creatinina vem subindo".
História. Hipertensão há 12 anos e DM2 há 9 anos. Sem internações recentes, sem uso de contraste. Há cerca de 3 meses começou a tomar diclofenaco por conta própria para dor no joelho; parou há 3 semanas, por orientação da unidade. Toma também um chá de ervas "para limpar o rim".
Medicamentos de uso contínuo. Losartana, anlodipino e metformina (doses não descritas neste caso).
Exame físico. PA 136/82 mmHg (média das duas últimas de três medidas, com técnica padronizada); frequência cardíaca 76 bpm; peso 84 kg; altura 1,70 m; índice de massa corporal 29,1 kg/m²; sem edema.
Exames de hoje. Hemoglobina glicada (HbA1c) 7,6 %; potássio 4,7 mmol/L; exame de urina sem hematúria e sem cilindros.
| Momento | Idade | Creatinina (mg/dL) | TFGe (mL/min/1,73 m²) | RAC (mg/g) | Observação |
|---|---|---|---|---|---|
| Há 3 anos | 61 | 1,10 | 76,4 | 20 | Rotina da unidade |
| Há 2 anos | 62 | 1,24 | 65,7 | 40 | Rotina da unidade |
| Há 1 ano | 63 | 1,38 | 57,5 | 75 | Rotina da unidade |
| Há 2 meses | 64 | 1,52 | 50,9 | 128,6 | Em uso de diclofenaco havia cerca de 1 mês |
| Hoje | 64 | 1,49 | 52,1 | 125,0 | 3 semanas após suspender o diclofenaco |
Confira os números em TFGe e RAC. A RAC de hoje veio de albumina urinária de 13,0 mg/dL e creatinina urinária de 104 mg/dL.
1. Qual é a sua proposta? Este paciente tem DRC?
Comentário do professor
Sim. Há dois critérios presentes por mais de 3 meses1, Tabela 1, página S137: TFGe abaixo de 60 mL/min/1,73 m² há pelo menos 1 ano (57, 51 e 52) e albuminúria de 30 mg/g ou mais em exames repetidos há 2 anos (40, 75, 129 e 125 mg/g). A cronicidade foi provada pela revisão de exames antigos, como pede o Ponto de prática 1.1.3.11, página S149.
Repare que a DRC já existia há 2 anos, com TFGe de 66 e RAC de 40 mg/g: quem olha só a creatinina perde esse período. O diclofenaco não explica a história, porque a queda começou antes dele e a creatinina quase não mudou após a suspensão (1,52 para 1,49 mg/dL). Ainda assim, ele é um agravante evitável1, Tabela 31, página S247.
2. Qual é a sua proposta? Qual é a categoria G e a categoria A? Como você escreve a classificação?
Comentário do professor
G3a (TFGe de 45 a 59) e A2 (RAC de 30 a 300 mg/g), pelas Tabelas 2 e 3 da KDIGO 20241, página S137. TFGe de hoje: 52,1 mL/min/1,73 m² (CKD-EPI 2021, homem, 64 anos, creatinina 1,49 mg/dL). RAC: 13,0 ÷ 104 × 1.000 = 125 mg/g.
Escreva com a causa: "DRC G3a A2, causa provável doença renal do diabetes e/ou hipertensiva, a confirmar". A queda é contínua, de 76,4 para 52,1 mL/min/1,73 m² em 3 anos (cerca de 32 %), sem um salto isolado acima de 20 % entre dois exames (o limite de variação esperada1, Ponto de prática 2.1.3, página S155).
Risco de falência renal: a KDIGO usa um risco de 3 % a 5 % em 5 anos pela KFRE como um dos critérios de encaminhamento ao nefrologista1, Ponto de prática 2.2.1, página S156. Calcule o risco deste caso na calculadora da área (4 variáveis, calibração não norte-americana) e discuta o resultado com o professor. Use a TFGe e a RAC completas da linha "hoje", não as arredondadas da tabela.
3. Qual é a sua proposta? O que falta investigar?
Comentário do professor
A causa precisa ser sustentada, não presumida1, Pontos de prática 1.1.4.1 e 1.1.4.2, páginas S149 e S150:
- exame de fundo de olho: retinopatia diabética reforça a doença renal do diabetes;
- ultrassonografia dos rins: tamanho, assimetria, obstrução;
- sedimento urinário repetido: hematúria ou cilindros mudariam a hipótese;
- nova RAC, de preferência na primeira urina da manhã1, Ponto de prática 1.3.1.1, página S154;
- revisão do chá de ervas e de outros produtos de venda livre1, Ponto de prática 4.1.3, página S164;
- exames do acompanhamento da DRC, como perfil lipídico, hemograma e bicarbonato, a definir com o professor.
O que faria pensar em outra causa: hematúria persistente, queda rápida da TFGe, proteinúria intensa sem retinopatia, sinais de doença sistêmica.
4. Qual é a sua proposta? Que medidas de proteção renal você leva para a discussão?
Comentário do professor
Alternativas para discussão. As doses ficam nas páginas de cada tema: Hipertensão (DBHA 2025) e Diabetes (PCDT).
- Evitar anti-inflamatórios e discutir analgesia alternativa1, Tabela 31, página S247.
- Bloqueio do SRA na dose máxima tolerada: ele já usa losartana; a pergunta é se a dose é a máxima tolerada1, Recomendação 3.6.3, grau 1B, página S158; Ponto de prática 3.6.1, página S159. Ver Hipertensão.
- iSGLT2: DM2 com DRC e TFGe de 20 ou mais1, Recomendação 3.7.1, grau 1A, página S159; 39, Recomendação 1.3.1, página S21. No SUS, a dapagliflozina tem dois caminhos: o PCDT de progressão da DRC (2024), para diabéticos em uso de IECA ou BRA com TFG de 25 a 75 mL/min, e o PCDT de DM2 (2026), por critério cardiovascular e idade3, páginas 12, 24 e 25. Ver Diabetes.
- Metformina: pode continuar com TFGe de 30 ou mais, com monitorização mais frequente abaixo de 6039, Recomendação 4.1.1 e Ponto de prática 4.1.2, página S26.
- Se a albuminúria persistir apesar do bloqueio máximo do SRA: finerenona1, Recomendação 3.8.1, grau 2A, página S159, não incorporada ao SUS.
- Estatina: 50 anos ou mais com TFGe abaixo de 601, Recomendação 3.15.1.1, grau 1A, página S162.
- Pressão e sódio: 136/82 mmHg está acima da meta da diretriz brasileira, abaixo de 130/80 mmHg2, página 71; a KDIGO propõe sistólica abaixo de 120 mmHg quando tolerada e com medida padronizada1, Recomendação 3.4.1, grau 2B, página S158. Sódio abaixo de 2 g por dia1, Recomendação 3.3.2.1, página S157.
O que falta saber: a dose atual da losartana, o fundo de olho, a meta glicêmica individual (a KDIGO 2022 admite de abaixo de 6,5 % a abaixo de 8,0 %39, Recomendação 2.2.1, página S23) e o acesso real aos medicamentos.
Caso 2. Pressão difícil na DRC
Caso fictício, criado para ensino
Contexto. Mulher de 67 anos, sem diabetes (HbA1c 5,6 %), em acompanhamento no ambulatório por DRC G3b A3 há mais de 1 ano, atribuída à hipertensão de longa data. Retorna com "pressão alta que não baixa".
Medicamentos. Enalapril (IECA) na dose máxima tolerada registrada na última consulta e anlodipino. Nega anti-inflamatórios. Há alguns meses passou a usar "sal light" para "cuidar da pressão".
PA na triagem. 168/98 mmHg, medida logo após subir a escada, conversando, com manguito padrão. Circunferência do braço: 36 cm.
PA repetida pelo aluno, após 5 minutos de repouso, com manguito adequado ao braço: 152/90, 148/88 e 146/86 mmHg (média das duas últimas: 147/87 mmHg). Frequência cardíaca 82 bpm. Edema maleolar discreto, bilateral. Peso 2 kg acima da consulta anterior.
MRPA feita com aparelho validado, conforme orientação do serviço: média de 142/86 mmHg.
| Exame | Há 4 meses | Hoje |
|---|---|---|
| Creatinina (mg/dL) | 1,50 | 1,45 |
| TFGe (mL/min/1,73 m²) | 38,0 | 39,5 |
| RAC (mg/g) | 810,0 | 764,7 |
| Potássio (mmol/L) | 5,0 | 5,3 |
| Sódio (mmol/L) | 140 | 139 |
| Bicarbonato (mmol/L) | 23 | 23 |
RAC de hoje: albumina urinária de 52 mg/dL e creatinina urinária de 68 mg/dL. Confira em TFGe e RAC.
1. Qual é a sua proposta? A medida da PA é confiável?
Comentário do professor
A da triagem, não: esforço recente, fala e manguito pequeno para um braço de 36 cm superestimam a PA. A técnica pede repouso de 5 minutos, silêncio, braço apoiado e três medidas, usando a média das duas últimas2, Figura 3.1 e Quadro 3.1, página 35; o manguito inadequado é causa conhecida de pseudorresistência2, seção 12.4.1, página 105.
A repetida pelo aluno (147/87 mmHg) e a MRPA (142/86 mmHg) são confiáveis e concordam: na MRPA, 130/80 mmHg ou mais já define PA elevada2, Quadro 3.4, página 37. Há algum efeito do avental branco, mas a PA está acima da meta também fora do consultório; a meta na DRC em tratamento conservador é abaixo de 130/80 mmHg2, página 71.
2. Qual é a sua proposta? Esta paciente tem hipertensão resistente, mesmo que aparente?
Comentário do professor
Não. Hipertensão resistente exige três ou mais classes com ações sinérgicas, em doses máximas preconizadas ou toleradas, preferencialmente um diurético tiazídico ou similar, um IECA ou BRA e um bloqueador dos canais de cálcio de ação prolongada, por pelo menos 30 a 60 dias, e com pseudorresistência afastada2, seção 12.1, página 105. O PCDT de hipertensão usa a mesma lógica das três classes25, página 12.
Ela usa duas classes e nenhum diurético: é hipertensão não controlada. Antes de rotular, afaste as outras causas de pseudorresistência: falha de adesão, a principal delas, e inércia terapêutica2, seções 12.4.3 e 12.4.4, página 107.
3. Qual é a sua proposta? Pensando em PA = FC × VS × RVP, que classe faz sentido acrescentar?
Comentário do professor
PA = frequência cardíaca (FC) × volume sistólico (VS) × resistência vascular periférica (RVP). Leia cada termo no caso:
- FC de 82 bpm, sem doença coronariana nem insuficiência cardíaca: não há indicação específica de betabloqueador2, seção 8.2.3, página 70.
- RVP: já tratada pelo IECA e pelo anlodipino.
- VS e volume: DRC, edema, ganho de peso e consumo de sódio apontam para retenção de sódio e água.
A alternativa para discussão é um diurético. A diretriz brasileira considera tiazídicos ou similares e diuréticos de alça adequados para associação na DRC2, página 70 e recomenda trocar o tiazídico por diurético de alça com TFGe abaixo de 30 mL/min/1,73 m²2, página 109; com TFGe de 40, o tiazídico ou similar ainda é opção. O PCDT de hipertensão considera o diurético de alça preferível na doença renal25, página 36: essa diferença é ponto de discussão. Doses habituais no painel de cada classe, em Hipertensão.
O diurético também ajuda no potássio: a KDIGO 2024 lista o uso apropriado de diuréticos entre as medidas para hiperpotassemia1, Figuras 21 e 32, páginas S214 e S228. Retirar o sal light faz parte do plano, porque substitutos de sal com cloreto de potássio são fonte de potássio de alta absorção1, página S228, e o sódio deve ficar abaixo de 2 g por dia1, Recomendação 3.3.2.1, página S157.
Por que não espironolactona agora: ela é o quarto fármaco na hipertensão resistente2, página 108, e o PCDT pede atenção com TFG abaixo de 45 ou potássio de 4,5 mmol/L ou mais25, página 40. Esta paciente tem as duas condições.
4. Qual é a sua proposta? O que monitorar depois da mudança?
Comentário do professor
- Creatinina e TFGe: uma queda acima de 30 % após terapia hemodinamicamente ativa ultrapassa a variação esperada e pede avaliação1, Ponto de prática 2.1.4, página S155.
- Potássio e sódio: o potássio pode cair com o diurético e a retirada do sal light; o sódio pode cair com o tiazídico.
- PA pela MRPA, com a mesma técnica, e pesquisa de hipotensão ortostática.
- Peso e edema.
- Adesão: número de comprimidos e horários.
No nosso ambulatório, depois de iniciar ou aumentar o diurético, pedimos sódio, potássio e creatinina em 1 a 2 semanas e reavaliamos a PA e o peso; depois, o intervalo segue o caso (prática do serviço, combinada com o professor). Para mudanças no bloqueio do SRA, a KDIGO usa 2 a 4 semanas1, Figura 21, página S214.
Também cabe discutir a proteção renal além da PA: com RAC acima de 200 mg/g e TFGe de 20 ou mais, a KDIGO 2024 recomenda iSGLT2 mesmo sem diabetes1, Recomendação 3.7.2, grau 1A, página S159; no SUS, o PCDT de progressão da DRC prevê dapagliflozina para não diabéticos com RAC acima de 300 mg/g e TFG de 25 a 75 mL/min, em uso de IECA ou BRA. Vale estimar o risco de falência renal pela KFRE e compará-lo com o limiar de 3 % a 5 % em 5 anos1, Ponto de prática 2.2.1, página S156; use a calculadora da área com a TFGe e a RAC completas, não as arredondadas.
5. Qual é a sua proposta? Por que não somar um BRA ao enalapril?
Comentário do professor
Porque o bloqueio duplo é contraindicado: a KDIGO 2024 recomenda evitar qualquer combinação de IECA, BRA e inibidor direto da renina, com ou sem diabetes1, Recomendação 3.6.4, grau 1B, páginas S158 e S213, e a diretriz brasileira indica IECA ou BRA como primeira escolha, "não sendo recomendada a sua associação"2, página 70.
No caso, o argumento fisiológico reforça a regra: o SRA já está bloqueado na dose máxima tolerada, o termo da equação que está sem tratamento é o volume, e um segundo bloqueador somaria risco de hiperpotassemia numa paciente com potássio de 5,3 mmol/L. Acima de 5,5 mmol/L, o PCDT de hipertensão contraindica o bloqueio do SRA25, quadro da página 35.
Na discussão do ambulatório
O detalhe que passa despercebido. O sal light. A paciente acha que está ajudando a pressão e está somando potássio a um IECA na DRC.
A pergunta que muda a decisão. "Quantas classes, em que dose, há quanto tempo, e ela toma?" Sem diurético, não chamo de resistente; sem adesão confirmada, não intensifico às cegas.
O que precisa ser individualizado. A meta de PA aos 67 anos, o risco de quedas e de hipotensão ortostática e a causa da albuminúria A3 sem diabetes, que merece ser rediscutida antes de ser atribuída apenas à hipertensão.
Dinâmica sugerida (orientação ao professor)
- Em duplas, de 20 a 30 minutos por caso.
- Sequência: entender o caso fictício, calcular e classificar, propor uma conduta e apresentar a justificativa ao professor.
- Ao final, recolher de cada dupla, sem dados pessoais: onde travou, que informação faltou e o que ajudou.
- Avaliar conclusão das tarefas, erros e utilidade percebida. Não atribuir a este teste melhora de resultados clínicos.
- Antes da aula, conferir o acesso pelo celular dos alunos, a conexão e os links.
Referências: lista completa da área de ensino, com links
O risco da KFRE não vem escrito nos casos: o aluno calcula na calculadora da área. Não há dose de início nem esquema de titulação; a dose de metformina citada descreve o que o paciente fictício usa.