Agonistas de GLP-1, tirzepatida e retatrutida
Os agonistas do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon 1 (GLP-1) baixam a glicemia, reduzem o peso e, com a semaglutida, protegem o rim no diabetes tipo 2 (DM2) com doença renal crônica (DRC). Esta página mostra como titular, o que fazer quando a dose falha ou é esquecida e o que checar antes de prescrever.
Discutir uma conduta
Doses das bulas brasileiras, com data de versão. Bula muda: confira a vigente antes de prescrever. O resultado entra na discussão com o professor; não é prescrição.
Em resumo
- Subir devagar: a cada 4 semanas (semanal) ou a cada mês (oral). Náusea e vômito são o motivo de abandono; adie o aumento se houver sintomas.
- No rim: a semaglutida 1 mg semanal reduziu em 24 % o desfecho renal e cardiovascular no DM2 com DRC (FLOW). Sem ajuste de dose pela TFGe; desidratação por vômito causa lesão renal aguda.
- Com insulina ou sulfonilureia: reduza esses medicamentos para evitar hipoglicemia.
- Gravidez: suspender a semaglutida pelo menos 2 meses antes de engravidar.
- No SUS: nenhum agonista de GLP-1 está incorporado.
Comece por: titulação · antes de prescrever · retatrutida
1. GLP-1, GIP e glucagon: o que cada um faz
Explorar a fisiologia
Modelo simplificado. Os três são hormônios intestinais ou pancreáticos; os medicamentos imitam um, dois ou três deles.
GLP-1
Insulina sobe só com glicose alta; glucagon cai; esvaziamento gástrico mais lento; saciedade.
semaglutida, liraglutida, dulaglutida
GLP-1 + GIP
Soma o polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose (GIP) ao GLP-1.
tirzepatida
GLP-1 + GIP + glucagon
Acrescenta o receptor de glucagon, que aumenta o gasto de energia.
retatrutida (em estudo)
2. Titulação passo a passo
Escolha o produto. Cada degrau dura pelo menos o tempo indicado; com náusea ou vômito importante, fique no degrau ou volte ao anterior.
3. Na doença renal crônica
| Medicamento | Ajuste pela função renal | Evidência renal |
|---|---|---|
| Semaglutida subcutânea, DM2 | Sem ajuste nas insuficiências leve, moderada e grave; experiência limitada na doença renal terminal56, p. 20. | FLOW: DM2 com DRC, 1 mg semanal contra placebo por 3,4 anos; desfecho renal e cardiovascular 24 % menor (razão de risco 0,76) e perda de TFGe 1,16 mL/min/1,73 m² por ano menor51. A bula traz a indicação de reduzir o declínio da TFGe e a morte cardiovascular no DM2 com DRC56, p. 1. |
| Semaglutida subcutânea, obesidade | Sem ajuste até a insuficiência moderada; não recomendada com TFGe abaixo de 30, incluindo a doença renal terminal57. | Sem estudo renal próprio nesta indicação. |
| Semaglutida oral | Sem ajuste nas insuficiências leve, moderada e grave; não recomendada na doença renal terminal58, p. 17. | Sem estudo renal dedicado. |
| Tirzepatida | Sem ajuste, inclusive na doença renal terminal (bula do paciente)59. | SURPASS-CVOT (DM2 com doença cardiovascular aterosclerótica, 13.165 pessoas, mediana de 4 anos), análise exploratória pré-especificada: desfecho renal composto 23 % menor que com dulaglutida (razão de risco 0,77), à custa de menos macroalbuminúria nova no risco baixo a moderado e de queda mais lenta da TFGe na DRC de alto risco (0,93 mL/min/1,73 m² por ano a menos)60. Albuminúria: −19 % a −26 % contra os comparadores no DM2 (SURPASS-1 a 5)61; na obesidade com DM2, −31 % contra placebo e −55 % com RAC de 30 mg/g ou mais (SURMOUNT-2)62. Antes: SURPASS-4, perda de TFGe de 1,4 contra 3,6 mL/min/1,73 m² por ano com glargina63. Estudo dedicado em DRC ainda sem resultado. |
| Retatrutida | Não aprovada: sem bula. | Nos estudos de fase 2, com TFGe de 45 ou mais, a albuminúria caiu 28 % a 37 % em relação ao placebo e a TFGe subiu nos participantes com obesidade64; o estudo em DRC (TFGe 25 a 75) só publicou o desenho65. |
A KDIGO 2022 recomenda agonista de GLP-1 de longa ação no DM2 com DRC fora da meta glicêmica apesar de metformina e iSGLT2, ou sem poder usá-los39, Recomendação 4.2.1, 1B, p. S26. O rascunho de 2026, ainda em consulta pública, propõe terapia baseada em GLP-1 com benefício cardiovascular ou renal comprovado para quem tem alto risco cardiovascular ou renal ou está fora da meta glicêmica7, Recomendação 4.5.1.
4. Antes de prescrever
Marque o que se aplica ao caso fictício; a página mostra o cuidado e a fonte.
5. Dose esquecida
Semaglutida subcutânea56, p. 21; tirzepatida59; oral58, p. 17. Depois de várias doses perdidas, a bula para obesidade sugere considerar reiniciar o escalonamento numa dose menor57; não há regra numérica de semanas.
6. Retatrutida: o que os estudos mostram
| Estudo | População | Resultado com 12 mg semanal |
|---|---|---|
| Fase 2, obesidade | 338 adultos, 48 semanas | peso −24,2 % (placebo −2,1 %)66 |
| Fase 2, DM2 | 281 pessoas, 24 a 36 semanas | HbA1c −2,02 pontos (dulaglutida −1,41); peso −16,9 %67 |
| TRANSCEND-T2D-1 | DM2 em monoterapia, 40 semanas | HbA1c −1,94 pontos; peso −15,3 %68 |
| TRIUMPH-1 | obesidade sem diabetes, 2.339 pessoas, 80 semanas | peso −25,0 % (placebo −3,9 %)69 |
| TRIUMPH-2 | obesidade com DM2, 80 semanas | peso −18,8 % (placebo −5,1 %)70 |
- Efeitos adversos: náusea, vômito e diarreia dependentes da dose; disestesia (alteração da sensibilidade da pele) em 7 % a 12,5 % com as doses altas; aumento da frequência cardíaca69; 70; 66.
- Desfecho cardiovascular: no TRIUMPH-3, ainda só em comunicado do fabricante, não houve redução demonstrada de eventos cardiovasculares maiores55.
- No rim: os dados são de fase 2 e de populações com TFGe preservada; o efeito em quem tem DRC ainda não foi publicado.
7. Acesso
- SUS: nenhum agonista de GLP-1 está incorporado. A Conitec recusou a semaglutida para obesidade em 2025, pelo impacto orçamentário e pela custo-efetividade71; o Ministério da Saúde protocolou novo pedido em setembro de 2026, sem decisão72.
- Semaglutida para obesidade, dose de 7,2 mg: aprovada em 2026 só para adulto com IMC de 30 ou mais sem resposta adequada a 2,4 mg, depois de pelo menos 4 semanas em 2,4 mg73.
8. Qual é a sua proposta?
Caso fictício: homem de 61 anos, DM2 há 14 anos, IMC 34 kg/m², TFGe 48 mL/min/1,73 m², RAC 420 mg/g, em metformina 1 g por dia, dapagliflozina 10 mg e losartana na dose máxima. HbA1c 8,1 %. Glibenclamida 5 mg. O que você acrescenta e o que muda?
Comentário
- Agonista de GLP-1 de longa ação: fora da meta com metformina e iSGLT2, é a recomendação da KDIGO39, Recomendação 4.2.1, 1B, p. S26; com DRC e albuminúria, a semaglutida tem desfecho renal no FLOW51.
- Titular 0,25 mg semanal por 4 semanas, depois 0,5 mg, depois 1 mg56, p. 20.
- Glibenclamida: não recomendada a partir de 60 anos pelo PCDT3, páginas 24 e 40; ao somar o agonista, o risco de hipoglicemia aumenta. Discuta suspender ou trocar.
- Orientar: hidratação e suspensão temporária se houver vômito ou diarreia; com TFGe de 48 e iSGLT2, a desidratação pesa mais.
O que falta saber: fundo de olho, histórico de pancreatite e de tumor de tireoide na família, acesso ao medicamento.